Um verdadeiro pé-de-boi
A criação de búfalos por agricultores familiares é pouco comum no Brasil.
A prática ainda é exceção na arraigada cultura brasileira de recorrer aos derivados dos bovinos, caprinos, ovinos e suínos ou, ainda, de mulas, jegues e cavalos, para tração animal.
O uso do búfalo no serviço de roça por pequenos agricultores, contudo, vem sendo sugerido pelo coordenador do Programa de Desenvolvimento da Bubalinocultura do Estado, médico veterinário Antonio Vicente.
Diz ele que agricultores do município de Uruçuca, no sul do Estado, estão criando búfalos. “Os criadores se entusiasmaram com o búfalo e com a possibilidade de vender o leite para uma fábrica de laticínios da região", testemunha. Além do leite, também a carne, comestível, é uma fonte de renda. O couro pode ser destinado à fabricação de selas, tapetes e acessórios e itens decorativos.
É considerado agricultor familiar aquele que não possui mais do que quatro módulos fiscais (medida que varia de 15 a 90 hectares, a depender do município, no Nordeste); cuja mão-de-obra da própria família é maior que a contratada e que tira seu sustento da sua propriedade.
As qualidades do animal foram ressaltadas por Antonio Vicente, que também é pesquisador da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agropecuário (EBDA), para a A TARDE Rural, endossado por três criadores, dois, especialistas em bubalinocultura.
O búfalo é um animal de comportamento dócil, o que facilita a lida e a execução de atividades rotineiras do campo, como o transporte de insumos ou aração da terra, destaca Antonio Vicente. "Quanto mais contato com o ser humano, mais manso e dócil o animal fica”, informou. Na Índia, crianças e mulheres cuidam dos búfalos, enquanto os homens ficam com os trabalhos mais árduos da lavoura, como cavar terras.O criador Getúlio Soares, por exemplo, possui 43 búfalos, no município de São Sebastião do Passé, Região Metropolitana de Salvador, e é considerado um pequeno criador.
Ele confirma que esses animais, de pelagem negra, são menos arredios que os bovinos, para citar. "Uso dois búfalos para tração em carroça e para trabalhar no arado. Eles não dão coice nem partem para cima, como faz o gado Nelore", compara. Quem já cria gado bovino não tem grandes dificuldades com os búfalos. A dieta é semelhante à de bovinos: leguminosas e gramíneas, sendo menos exigente em suplementos (forrageiras ou ração), segundo Antonio Vicente.
"Pode-se criar o búfalo no pasto, apenas mineralizando a alimentação", ensina, por sua vez, o professor Antonio Jorge Del Rei Moura, do curso de Zootecnia da Universidade Estadual do Sudoeste (Uesb), em Itapetinga.
O professor frisa que o cuidado com as doenças deve ser o mesmo para bovinos e bubalinos, com vermifugação periódica.
REBANHO – As estatísticas oficiais atestam que a criação de búfalos é uma prática ainda pouco usual em todo o País, mais restrita à região Norte, mas com representatividade também também nos Estados do Sul. O Pará lidera o rebanho nacional, com 464 mil unidades.
Amapá vem em segundo, com 165 mil, e o Rio Grande do Sul fica em terceiro, com 86 mil.
Quando comparados com os demais rebanhos, os búfalos ficam em último lugar, com pouco mais de 1 milhão de cabeças. Os dados dos demais são: bovinos (204 milhões de cabeças), suínos (33 milhões), ovinos (15 milhões) e caprinos (10 milhões).
Os dados são do Ministério da Agricultura, em 2004.
Na Bahia, com um rebanho de 17.413 cabeças de búfalos, os bovinos são a maioria (10,4 milhões de cabeças), na proporção aproximada é de um búfalo para cada 615 bois. A criação de búfalos na Bahia concentra-se no sul (44,7%), Região Metropolitana (31,3%) e no centro-sul (15,1%), segundo o IBGE. No Amapá, a proporção é de dois búfalos para um boi.
O clima quente e úmido e a vegetação alagada da região Norte são condições propícias para a criação de búfalos, explica a chefe do Departamento de Inspeção do Produtos de Origem Animal da Secretaria de Agricultura do Amapá, Romilda Correia.
Há duas semanas, o Amapá iniciou a exportação de búfalo, com 1.700 animais enviados de navio para o Líbano. Mesmo com viagem de navio de 15 dias, os animais ganharam peso. “Uma prova da rusticidade desse animal”, destaca Romilda Correia.
A Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) atua no combate a três doenças que atacam o búfalo: Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa, Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal e o Programa Nacional de Controle de Raiva dos Herbívoros e Prevenção da Doença da Vaca Louca.
A Adab mantém também o controle do trânsito dos búfalos e da população dos transmissores de vírus, realiza exames sorológicos e sacrifica animais suspeitos, para evitar o aumenta da contaminação.
JAIR FERNANDES DE MELO