Energia limpa e renovável
O vento que leva a chuva para o semiárido, ou afasta, é o mesmo que pode trazer água do subsolo, movimentando equipamentos que puxam o líquido. Esses instrumentos, a exemplo do catavento, têm sido usados por agricultores em várias regiões do Estado.
São engenhos em forma de torres, com altura que variam de 6 a 24 metros, a depender do lugar onde estejam implantados. Mas o funcionamento é simples e se baseia em princípios da física e da matemática.
"Essas coisas nós aprendemos na escola, a Lei do Empuxo, a Lei de Arquimedes", explica Francisco Vichinheski, técnico agrícola e diretor da Cataventos Nordeste, empresa instalada em Juazeiro há cinco anos e que fabrica cataventos para particulares e programas do governo do Estado.
Ele começou a montar esses instrumentos em 1970, no Rio Grande do Sul; depois veio se instalar em Juazeiro.
“Descobri que o lugar mais ideal para vender o catavento é aqui no Nordeste”, disse, acrescentando que o vento é ideal para quem precisa de água e imagina que ela só vem com a chuva ou somente pode ser captada por bombas elétricas.
"Energia eólica é a energia do vento.
Desenvolvemos tecnologia para melhorar o bombeamento de água em pequenas propriedades rurais", resume o empresário, que aponta os ganhos na produtividade dos poços: os antigos captam até 5 mil litros de água por dia; os mais modernos, entre os quais os que ele fabrica, atingem 60 mil litros de água por dia.
Outra vantagem citada por Francisco Vichinheski é o fato de o catavento possuir um sistema de alavanca manual (que movimenta uma bomba) que, no caso de pouco vento, não deixa o produtor sem água. Os preços do catavento partem de R$ 3.800, cujo equipamento é capaz de puxar de 5 a 8 mil litros de água por dia, suficientes para abastecer 400 cabeças de caprinos, por exemplo.
O mesmo equipamento seria capaz de irrigar, no sistema de gotejamento, 10 hectares de culturas permanentes ou temporárias como melancia e melão. A água pode ser destinada também à criação de peixes.
O empresário dos cataventos diz que, nos primeiros seis meses, devese fazer manutenção com a limpeza no sistema, porque a água ainda está suja. Nos anos seguintes, contudo, não passa de R$ 20, valor da peça que precisa ser trocada anualmente.
“O costume é utilizar canos galvanizados, mas 90% da água do Nordeste é salobra e enferruja a tubulação. Por isso, usamos cano plástico, que não enferruja”, destaca como uma das medidas de economia.
ENERGIA ELÉTRICA – A Cataventos do Nordeste também trabalha com cataventos integrados a geradores de energia elétrica – outra economia gerada pela energia eólica. O valor do gerador com potência média de 700 watts (R$ 7.500) deve ser adicionado ao do catavento. "O cliente pode ligar todos os equipamentos, menos geladeira e chuveiro elétrico", diz.
Se a energia eólica produzindo energia mecânica já é uma grande aplicação do recurso natural renovável, a geração de energia elétrica representa uma atividade estratégica não só para produtores, mas para todo o País. Eduardo Soriano, coordenador de desenvolvimento de tecnologias setoriais do Ministério da Ciência e Tecnologia, sublinha que, embora com muita energia hidráulica no Brasil e a preço barato, não se deve depender apenas dela.
"Se tivermos três anos de seca, podemos ficar em apuros. É preciso diversificar a matriz enérgica, com a eólica, nuclear, por exemplo, e fazer investimentos que nos dêem segurança energética. Ou seja, ter energia abundante para o tempo que o País precisar. Esse é o grande desafio brasileiro e mundial", explica.
Ele lembra que o Protocolo de Kyoto obriga os países a introduzir energias alternativas e não ficarem dependentes das atuais fontes. O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), do governo federal, prescreve a instalação de 3.300 megawatts de capacidade.
A energia eólica representa 1.100 MW.
JAIR FERNANDES DE MELO