Assentamento de Itiúba produz verdura orgânica (A Tarde)

13/11/2006

Assentamento de Itiúba produz verdura orgânica

 

Há apenas três quilômetros do centro da sede do município de Itiúba (a 391 km de Salvador na região norte), numa antiga área de 860 hectares do governo estadual vivem 35 famílias de trabalhadores rurais assentados desde agosto de 1989. A luta pela conquista do direito de trabalhar na terra abandonada demorou pouco mais de um mês desde a ocupação em julho do mesmo ano. Hoje, os assentados produzem para o mercado local De lá para cá, as famílias que vieram de diversos povoados vizinhos e não vislumbravam chances de uma vida digna para os filhos procuraram fazer do trabalho a arma para vencer as dificuldades.

Dezessete anos depois, os filhos crescidos e os netos que já surgem continuam o trabalho dos pais e transformam a terra que fica no pé da serra, numa das maiores fontes de abastecimento de verduras e hortaliças da cidade, responsável por grande parte da economia do município e todos os produtos são originados da agricultura familiar e totalmente orgânicos.

Cada família possui um lote de 13,2 hectares com hortas e pomares individuais e também existem os coletivos. Os animais existentes em roças de pasto, com capim plantado, são cuidados por todos os trabalhadores que mantém desde 2004 a Associação dos Assentados da Fazenda Bela Conquista.

AMARGURA –Dos 17 filhos que teve 14 sobreviveram e Maria Silva de Jesus, de 58 anos, criou todos eles na lida do trabalho da terra. “Passamos muitos anos de amargura e angústia, mas depois que viemos para cá foi uma alegria só”, comemora a agricultora enquanto planta beterraba, cenoura, coentro, cebolinha e alface na terra que o filho Claudionor Gonçalves da Silva, 24 anos, preparou. Ela conta que nos momentos mais difíceis a família sobrevivia de catar “licori” na serra, para vender o coco e palha para fazer cestos.

– Nunca deixamos de trabalhar e, se não déssemos o exemplo, é o mundo quem dá. Sou feliz, mesmo não tendo o que quis porque meus pais não podiam me dar. Mas, enquanto eu tiver vida e força para trabalhar, os meus filhos vão ter. E o estudo é o principal – assegura dona Maria com a determinação de uma mãe que já passou por muitas dificuldades para ver a família unida e bem.

Na área ao lado, os casal Camilo de Jesus Olivira e Zenilda Pires Oliveira de Jesus, trabalham lado a lado na terra que serviu para sustentar a criação dos 12 filhos. Eles dizem que enfrentaram muitas discriminações na cidade, até serem aceitos e conseguirem mostrar às pessoas que ‘não havia motivos de temer. Tudo que precisávamos era de terra para viver e trabalhar’.

RESPEITO – O vice-presidente da Associação dos Assentados da Fazenda Bela Conquista, José Carlos Ferreira, afirma que “o respeito da população da cidade foi adquirido com o resultado do nosso trabalho.

Hoje dormimos mais tranqüilos, do que na época em que trabalhávamos para outras pessoas”.

A credibilidade dos trabalhadores rurais assentados de Itiúba já rendeu uma forte representação na Câmara de Vereadores com a eleição do vereador Otaviano Barbosa, que está no segundo mandato e tem a simpatia de todos os assentados e trabalha como intermediário dos trabalhadores rurais da região.

Do Açude Coité que fica dentro das terras, vem a água que chega até o assentamento por gravidade.

A energia elétrica só chegou depois do Luz Para Todos em 2004, mas os produtores assentados acreditam que ‘pior já esteve. Agora só temos que continuar trabalhando’.

CRISTINA LAURA