Michelin investe na Costa do Dendê
Na Costa do Dendê – uma região com clima e solo propícios para a plantação de seringueiras – a Michelin, indústria francesa de pneus, instalou-se há 23 anos. Ali, reiniciou a produção do látex, matériaprima utilizada na fabricação da borracha. A área era utilizada anteriormente pela Firestone, entre 1956 e 1975.
Enquanto as plantações iniciadas pela empresa noMato Grosso não tinham condições de produzir a contento, os campos baianos, já maduros, passaram a fornecer a borracha que compõe cerca de 40% do pneu de um caminhão e 20% do pneu de carro de passeio.
Cerca de 12% do látex nacional vem desta região.
Atualmente, a Michelin produz, por ano, somente nos municípios de Ituberá e Igrapiúna, 15 mil toneladas de granulado escuro brasileiro (GEB), denominação da matéria-prima utilizada na fabricação dos pneus. Esse montante corresponde a cerca de R$ 70 milhões anuais, de acordo com Lionel Barré, diretor das Plantações Michelin da Bahia. O empreendimento responde por 500 empregos diretos nos seringais.
PUPUNHA – Dezenas de vagas foram abertas para agricultores familiares, que cultivam pupunha para a Ambial, fábrica de palmito líder no Brasil em processamento, antes pertencente à Michelin e vendida para o grupo Odebrecht.
“A Ambial participa de todo o processo de redinamização econômica da região, somos parceiras”, afirma Lionel Barré. O comércio da região também ganhou novo fôlego com a atuação da Michelin, que mantém 1,5 mil hectares de conservação ambiental da Mata Atlântica, a maior reserva do País.
Um empreendimento recente vai absorver mais mão-de-obra local.
Trata-se da construção da Vila Nova Igrapiúna, que aumentará em 40% a população do município, segundo Paulo Roberto Bonfim, gerente de comunicação da Michelin e um dos 12 médios proprietários.
Serão 264 casas, para abrigar 1.500 pessoas.
OURO VERDE – A direção das Plantações Michelin da Bahia está fazendo contatos iniciais com grandes empresas de celulose para compartilhar os conhecimentos sobre o projeto Ouro Verde Bahia.
A expectativa é que haja uma maior interação com as comunidades do entorno das plantações de eucalipto, que geralmente são contrárias à monocultura, que empobrece o solo, e a mecanização da lavoura, que dispensa a mão-de-obra humana.
Lionel Barré estima que a injeção de recursos feita pela empresa na economia local alcance R$ 21 milhões, na forma de empréstimos do Banco do Nordeste do Brasil e da Caixa Econômica Federal concedidos para 12 médios produtores, que fabricam borracha e vendem para a Michelin. Os terrenos onde eles praticam a heveicultura (400 hectares para cada um) foram comprados da própria multinacional, que financiou o pagamento em oito anos. Os proprietários formam a Cooperativa Ouro Verde Bahia, que tem uma produção de 2.500 toneladas de GEB por ano.
A indústria de pneumáticos francesa também mantém um projeto de apoio à agricultura familiar, com 530 famílias que aderiram ao programa de assistência técnica. Os 12 médios produtores de látex cultivam ainda 600 hectares de cacau. “Mesmo que o preço do cacau esteja muito em baixa, é válido. Com o consórcio, aplicamos em algo que já é tradicional na região e otimizamos o uso da terra”, esclarece Paulo Roberto Bonfim.
MÉDIO PRODUTOR – Desde novembro de 2004, Paulo Roberto produziu 220 toneladas de borracha.
Ele começou com 18 empregados e agora tem 40, que moram na Vila Canário, pertencente a seis produtores. Engenheiro agrônomo formado pela Ufba, Paulo teve o primeiro emprego na Michelin e mora com a família na cidade há 17 anos. Faltam 6 anos para terminar de pagar a área comprada.
“Eu não tinha dinheiro para comprar os 400 hectares. Hoje, com os preços que se tem da borracha, pagamos nossas contas e a dívida pela própria produção”, explica.
O dinheiro para o consórcio cacau-seringueira veio do Banco do Nordeste, que traçou um plano de negócio para cada médio proprietário e abriu uma linha de crédito específica para o projeto.
*O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA MICHELIN.
*No Brasil, a Michelin fabrica pneus de carga, que recebem 50% de borracha natural, e está iniciando agora a produção de pneus para uso em mineração e terraplanagem.
A quantidade de borracha varia de acordo com o uso. Quanto maior o esforço sobre o material, mais a borracha confere resistência. A borracha sintética, por sua vez, oferece conforto e menor desgaste e é a mais utilizada em carros de passeio.
JAIR FERNANDES DE MELO