Falta de contêineres atrasa exportação de frutas do NE
A concentração das exportações brasileiras de carne bovina, uma pequena melhora nos embarques de frutas e a demanda da China e da Índia por navios estão provocando novos problemas logísticos nos portos nordestinos. Produtores do Vale do São Francisco, maior pólo de frutas do país, enfrentam dificuldades de escoamento no auge da safra e prevêem prejuízos substanciais. Há casos em que exportadores recorreram ao transporte aéreo para honrar contratos.
O problema está localizado sobretudo nos embarques de uva e manga, dois carros-chefes da região, que começaram a ser escoados no fim de setembro. Analistas concordam que a safra de manga está melhor que a de 2005 e a uva se recuperou neste semestre, o que provocou uma disputa por contêineres refrigerados com exportadores de carne do Sul e Sudeste. "Os contêineres sumiram depois que a Rússia levantou o embargo à carne brasileira [ver matéria ao lado]", diz o consultor Jean Paul Gayet.
Segundo a Valexport (Associação dos Produtores e Exportadores de Hortigranjeiros do Vale do São Francisco), 20% da safra não conseguiu embarcar no prazo. Dos quase 50 exportadores de frutas da região - os "packing houses" - , estima-se que a pelo menos dez optaram pelo transporte aéreo. Ao que tudo indica, o prejuízo, que só será fechado com o fim da safra, em dezembro, será alto: o frete de navio varia de US$ 0,15 a US$ 0,20 por quilo; o de avião pula para US$ 1.
Em condições normais, menos de 1% do total de frutas frescas brasileiras é exportado via aérea - somente variedades sensíveis, como figo e kiwi, entram nesse esquema.
"Se com crescimento [da economia brasileira] de menos de 3% já tem problema, imagina o estrangulamento com uma expansão de 5%. Seria o caos", diz o superintende da Valexport Aberto Galvão, repetindo o que dez entre dez economistas pensam sobre os problemas logísticos do país. "Os contêineres estão sendo um ponto de estrangulamento na exportação".
Os exportadores alegam que as companhias marítimas estão saindo mais carregadas dos portos do Sul e do Sudeste, onde atracam primeiro, e que chegam ao Nordeste com pouco ou nenhum espaço para embarques. "O Nordeste é desprezado, o pessoal prioriza o Sul", reclama Reginaldo Vieira, gerente de logística da Fruitfort Agrícola e Exportação, uma das maiores exportadores de Petrolina (PE).
Recentemente, a empresa negociou o transporte com dois armadores, mas devido à falta de contêineres acabou enviando as frutas por cinco navios diferentes - saindo de Salvador (BA), Natal (RN), Suape (PE), Pecém (CE) e Mucuripe (CE). "O período mais crítico foi de 23 de outubro a 12 de novembro. Conseguimos embarcar 60% da produção de manga por cinco portos e os outros 40% ficaram estocados nas câmaras enquanto procurávamos alternativas", diz. "Frutas que eram para sair em oito dias acabaram saindo em 14". A empresa foi uma das que recorreram aos aviões para embarcar as frutas de Recife e Salvador. "Fizemos isso para atender aos clientes mais exigentes com prazos de entrega, apesar dos fretes mais altos".
"Teve uma semana em que os armadores prometeram 50 contêineres e mandaram 8", completa Robson Gonçalves Correia, administrador do BGMA, entidade que congrega os produtores de manga do Vale do São Francisco. "Temos que estocar em câmara fria e apelar para Deus. Teremos um prejuízo brutal, mas só poderemos medir a dimensão no final da safra".
Segundo Gayet, a demanda reprimida pelas carnes brasileiras devido ao embargo russo levou a uma realocação das companhias marítimas, que tendem a preferir volumes maiores e entregas anuais a embarques sazonais e menores - como as frutas. "Além disso, há a o frete. A carne paga quase o dobro por um contêiner", explica ele.
"Não dá para fazer a programação correta para as exportações de frutas. Não sabemos se o mercado estará bom, se o clima vai ajudar", diz Pedro Veiga, da empresa de frete marítimo Nave Trade. Outro fator que contribui para esse cenário é o fato de os portos nordestinos receberem poucas importações - ao contrário do Sudeste - o que limita a chegada de contêineres.
"Os contêineres refrigerados também têm tido demanda de países emergentes, como China e Índia", acrescenta Moacir Saraiva Fernandes, presidente do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf). "Isso é preocupante porque ocorre nas janelas que temos para exportar para EUA e Europa. É uma janela curta e problemas em uma única semana complicam toda a logística".
A falta de infra-estrutura é, como sempre, o calcanhar-de-aquiles do escoamento. Segundo Correia, da BGMA, só um porto da região, o de Suape, possui transtêiner - um guindaste móvel que busca o contêiner fora do cais.
Em Salvador, a situação é considerada caótica. "O que está acontecendo agora é um problema clássico. Nossa infra-estrutura é a mesma há dez anos. Precisamos mais que dobrar a infra-estrutura portuária se quisermos crescer", diz Paulo Villa, diretor-executivo da Usuport, associação de usuários dos terminais portuários de Salvador. "As estradas são ruins, as tarifas nos portos são altas, faltam contêineres, os congestionamentos duram de 8 a 12 horas. Em casos excepcionais, até 2 dias".
Bettina Barros