Unir forças para crescer, o desafio da cadeia citrícola
É comum em modalidades esportivas, sobretudo as individuais, a expressão "fulano perdeu para ele mesmo, não para o adversário". Significa dizer que o "fulano" errou tanto que suas vantagens comparativas ficaram em segundo plano, oferecendo de bandeja a vitória ao rival.
É mais ou menos essa a realidade do segmento de suco de laranja hoje no país. Responsável por 59% da produção e 83% das exportações globais do produto em 2005, o Brasil não corre riscos de que essa hegemonia derreta nem no longo prazo, até pelos problemas de oferta na Flórida, principal concorrente de São Paulo no mercado global; mas, por divergências entre citricultores e indústrias, perde a oportunidade de expandir seu domínio e melhorar margens.
Estudo do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) e do Centro de Conhecimento em Agronegócio da Universidade de São Paulo (Pensa/USP) - apresentado a jornalistas ontem em São Paulo - identifica na questão organizacional o principal desafio para um contínuo e estável avanço dos negócios na área nos próximos anos, nas frentes doméstica e externa.
O diagnóstico ganha importância tendo em vista a decisão de terça-feira do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que barrou tentativa de acordo para encerrar o processo no qual as indústrias são acusadas de formação de cartel - oligopsônio, mais precisamente - por produtores.
Tal processo, que não é o primeiro, já se arrasta desde 1999. Passou anos engavetado, mas emergiu no início de 2006 a partir da apreensão de documentos na "Operação Fanta" da Polícia Federal e da Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça. Também colaborou o acordo de leniência com um ex-executivo de uma das indústrias, que aceitou colaborar com as investigações e fortaleceu a impressão do Cade de que regras para uma concorrência saudável foram quebradas pelo menos entre 1993 e 1999.
O acordo - frustrado - para encerrar o processo previa o pagamento, pelas indústrias (Cutrale, Citrosuco, Dreyfus, Citrovita e Montecitrus), de uma indenização de R$ 100 milhões, que seria destinada a ações envolvendo citricultores supostamente prejudicados pelo cartel. Este ano, durante as negociações entre empresas e produtores sobre o reajuste dos contratos de longo prazo de fornecimento da fruta para a fabricação da bebida, o encerramento da disputa no Cade era apontado como fundamental para a criação de uma "agenda positiva" nos moldes do que defendem de Icone e Pensa.
"Temos credibilidade, competitividade, tecnologia e potencial de crescimento no segmento, mas precisamos enfrentar problemas sistêmicos como pragas e doenças e a desarticulação da cadeia produtiva", diz Marcos Sawaya Jank, presidente do Icone e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. "O principal desafio é a evolução das relações contratuais".
"O Brasil é quase imbatível em quase todos os elos da cadeia citrícola, que gera R$ 10 bilhões por ano no país. O segmento já teve sua explosão nos anos 80, mas ainda tem condições de crescer 3% ou 4% ao ano", reitera Marcos Fava Neves, coordenador do Pensa e professor da FEA em Ribeirão Preto (SP).
Neves é um entusiasta da idéia de se fortalecer as organizações horizontais (de produtores, de indústrias etc) e de se criar no país uma grande organização vertical para abrigar os grandes temas do ramo, como pesquisa e defesa sanitária, contratos e arbitragem e inteligência e planejamento. E acreditava que os R$ 100 milhões que seriam pagos pelas indústrias para acabar com o processo no Cade poderia inclusive financiar a criação de tal entidade.
Enquanto ela não sai do papel, o Pensa fomenta a diversificação da citricultura no país. A partir de um estudo seu, nesta semana o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus), Ademerval Garcia, esteve no Vale do São Francisco para checar a viabilidade de investimentos das indústrias de suco no pólo nordestino de fruticultura.
Fernando Lopes