Algodão de volta ao plantio antigo
Frutas e verduras orgânicas produzidas sem a utilização de agrotóxicos ou qualquer outro produto químico são encontradas em supermercados e feiras facilmente, embora o público consumidor ainda seja restrito no País.
Mas um outro item orgânico, o algodão, está sendo cultivado por produtores brasileiros do Ceará, Goiás, Mato Grosso e Paraíba. Neste último Estado, agricultores de um assentamento negociaram oito toneladas com uma indústria têxtil de São Paulo. Na Bahia, de acordo com a Associação Baiana dos Produtores de Algodão, não há plantio de algodão orgânico.
Destinado à fabricação de roupas e fraldas para pessoas alérgicas, o algodão orgânico ainda é mínimo na cotonicultura – quarta cultura do mundo e segunda do Brasil, onde perde para a soja.
As informações são do pesquisador Napoleão Beltrão, chefe de pesquisa e desenvolvimento da unidade Algodão da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Campina Grande (PB). Ele conversou, por telefone, com A TARDE Rural.
Segundo o pesquisador, o consumo consumo mundial de algodão é de 24,5 milhões de toneladas por ano, uma quantidade quase próxima ao da produção. Neste universo, o algodão orgânico representa um valor ínfimo de 0,003%, que reflete na produção. O cotonicultor que desejar adotar o sistema precisa ter a propriedade certificada por entidades como o Instituto Biodinâmico de São Paulo e do exterior.
“A certificação é muito rigorosa.
A adubação não deve ser química, não pode haver resíduo de agrotóxico na plantação e a sacaria deve ser especial. Todo o combate a doenças e pragas é feito mecanicamente, seja de forma física ou biológica, com uso dos inimigos naturais”, destaca o pesquisador.
Um dos métodos de combate ao bicudo, a pior praga do algodão nas Américas, utilizados no cultivo do algodão orgânico é a catação dos botões florais, que reduz em 70% a população do inseto.
Para combater as formigas, outro inimigo do algodoeiro, usa-se folhas de mandioca, cal e extrato do nim, um inseticida natural. O valor agregado do algodão orgânico está, também, na menor quantidade de impureza, e o abandono da colheitadeira reduz o índice de poeira.
Variedades de algodão colorido também são desenvolvidas pela Embrapa Algodão, em Campina Grande, na Paraíba. O chefe de pesquisas Napoleão Beltrão diz que uma grande vantagem do produto é a economia de água.
“Para cada quilo de fibra, no tingimento, usa-se de 200 a 300 litros de água, a depender do processo utilizado”, disse o pesquisador.
Além disso, a Embrapa está pesquisando a produção do biodiesel a partir de algodão com maior teor de óleo. “Temos uma linha de melhoramento para aumentar para 25% a produção do óleo, sem mexer na fibra e reduzindo a proteína”, acrescenta.
JAIR FERNANDES DE MELO