Setor de papel e celulose projeta superávit de 14%
O setor brasileiro de celulose e papel projeta encerrar o exercício 2006 com superávit de 14,5% no faturamento com as exportações.
O desempenho vem na esteira do baixo crescimento do mercado interno, associado ao conceito de competividade global, considerado estratégico pelas empresas do ramo. O índice foi divulgado ontem, durante coletiva concedida à imprensa pela Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), em São Paulo.
O relatório da instituição, que agrega 220 empresas, distribuídas em 450 municípios brasileiros, dá conta de que, em 2006, as vendas externas dos insumos devem alcançar cerca de US$ 3,9 bilhões, ante aos US$ 3,4 bilhões apurados no ano passado.
Até o encerramento de 2006, a produção brasileira de celulose deverá alcançar 11 milhões de toneladas e, de papel, 8,8 milhões de toneladas, o que dá margem a um crescimento na comparação com 2005 de 6,3% e 1,8%, respectivamente.
Apesar da generosidade dos números, o grande desafio para a cadeia de celulose e papel para os próximos anos é alavancar as vendas internas. O País atualmente ocupa o topo do ranking da produção de celulose na variedade fibra curta de mercado, com uma produção que ultrapassa seis milhões de toneladas ao ano.
Por outro lado, o consumo per capita de papel no Brasil é um dos mais baixos do mundo. Os brasileiros consumiram apenas 39,5 kg de papel por habitante em 2005, abaixo da média mundial (56,3 kg), e em posição posterior a México (57,8 kg), Argentina (49,5 kg) e China (41,5 kg).
O presidente da Bracelpa, Horácio Lafer Piva, avalia que a elevada carga tributária associada aos entraves do setor de infra-estrutura e energia afeta negativamente o cenário para a geração de negócios no País. “Um dos grandes desafios da indústria de celulose e papel é a questão da tributação sobre o investimento, algo que nos afeta por conta do elevado capital que tem que ser empregado para a produção”, diz.
O executivo vê com reservas a questão da PEC 285, que trata do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
Com o argumento de tratar-se apenas da compilação das legislações tributárias dos Estados, o empresário ambiciona mudanças mais drásticas, com vistas a desonerar a cadeia produtiva e dinamizar as operações no setor.
Lafer Piva ainda adiciona que os gargalos estruturais devem ser enfrentados pelo segundo governo Lula, sob pena de recuo na meta de 5% de crescimento do PIB em 2007. A expectativa da Bracelpa é que os juros continuem caindo e que a economia se dinamize a ponto de permitir investimentos nos setores de transportes e geração de energia.
Outra questão que aflige a cadeia da celulose e papel é a insegurança jurídica. A legislação emperra investimentos, dados os prazos considerados longos pelo empresariado para a concessão de licenças ambientais. “Ainda temos que considerar a influência de movimentos organizados na questão, que muitas vezes se recusam ao diálogo, impulsionados por motivação ideológica”, diz.
Apesar dos entraves, a Bracelpa apresentou ao presidente Lula e seus ministros o seu programa de investimentos para o período 2003 a 2012, num total de US$ 14,4 bilhões. O valor ainda é avaliado pelos empresários como defasado, com perspectivas seguras de superação do montante previsto para o período. Em relação à questão ambiental, a Bracelpa argumenta que o plantio do eucalipto e pinus ajuda a reabilitar matas degradadas.
BAHIA – A região do extremo sul da Bahia sedia grandes empreendimentos do mercado de celulose e papel – Bahia Sul (Suzano), Aracruz e Veracel (Stora-Enso/Aracruz).
O Estado fornece as condições climáticas ideais para as florestas plantadas e ainda proximidade de uma estrutura portuária especializada em embarques de celulose, o porto de Vitória.
A planta de celulose da Bacell (Klabin), em Camaçari, é a única localizada fora da região. O professor da faculdade de economia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Oswaldo Guerra avalia que no desenvolvimento da indústria de móveis associada à cultura do eucalipto na região pode estar o motor para o dinamismo das economias locais.
* O repórter viajou a convite da Associação Brasileira de Celulose e Papel.
LUIZ SOUZA