Recuperação de preços deve aliviar queda do PIB no campo em 2006
Impulsionada pela reação positiva dos preços das commodities e pela elevação do consumo interno de alimentos, a renda no campo segue a dar sinais de recuperação. Estimativas conjuntas divulgadas ontem (dia 30) pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP (Cepea) mostram que o PIB do agronegócio deve recuar 0,53% em 2006. Na projeção anterior, previa-se um retração de 1,54% - em 2005, a queda chegou a 4,66%.
As projeções, baseadas no desempenho registrado de janeiro a setembro, indicam que as riquezas geradas pelo agronegócio devem somar R$ 534,7 bilhões neste ano. O resultado significa um acréscimo de R$ 5,4 bilhões à previsão anterior para o PIB, mas está longe dos R$ 537,6 bilhões de 2005. A crise de renda no segmento de grãos e na pecuária deve impor uma perda de R$ 2,86 bilhões em receita ao setor, calculam CNA-Cepea. "Seguramente, fecharemos o ano com perdas. Mas o terceiro trimestre pode reduzir o tamanho dessa queda", afirma o superintendente técnico da CNA, Ricardo Cotta.
Mesmo sem previsões oficiais de PIB para 2007, as perspectivas são mais animadoras. Clima favorável, cotações em alta no mercado externo, custos de produção em média 12% menores e câmbio um pouco mais favorável devem resultar em crescimento do PIB no próximo ano. "Tudo indica que 2007 será melhor. Mas ainda precisamos de ajustes para autorizar a importação de defensivos genéricos, liberar a comercialização de novos transgênicos e melhorar a infra-estrutura", acredita Cotta.
De fato, os produtores de grãos perceberam um certo alívio nos últimos meses. Ainda é insuficiente, mas as cotações de soja, milho, trigo e algodão já alcançaram níveis bastante superiores às médias históricas. E o PIB global da agricultura, que inclui os segmentos básico, insumos, indústria e distribuição, cresceu 0,9% em sete meses. Mas a pecuária, golpeada por problemas sanitários e cotações em baixa, continua a perder renda. Apesar da reação positiva de 0,38% em setembro em função da elevação de preços de boi e frango, mantém-se a previsão de queda de 4,38% em 2006. O segmento básico, porém, retrocedeu 3,3% até setembro.
O levantamento da CNA-Cepea mostra que as riquezas geradas pelo segmento primário da agropecuária continuam a encolher. Prevê-se um recuo de 3% - ou R$ 4,7 bilhões -, o que reduzirá o PIB de R$ 153 bilhões para R$ 148,3 bilhões neste ano. A pesquisa indica um PIB pecuário de R$ 64,8 bilhões e um PIB agrícola de R$ 83,45 bilhões.
O segundo resultado negativo consecutivo do PIB do agronegócio deve levar a uma redução de quase dois pontos percentuais de sua fatia no PIB nacional, segundo as estimativas. A participação do setor deve cair de 27,9% para 26% neste ano.
Os cálculos sobre faturamento bruto, que medem o faturamento dos 25 principais produtos agropecuários, permanecem inalterados, com previsão de retração de 4,3% em 2006. A queda de 13,7% no segmento de grãos na comparação com 2005 deve reduzir a receita das lavouras a R$ 166,5 bilhões. No ano passado, o faturamento somou R$ 174,1 bilhões. Cana, café e laranja amenizaram a situação, agregando R$ 4,4 bilhões (9,2%) em receitas. Em 2006, o faturamento desses outros produtos agrícolas serão de R$ 52,2 bilhões ante R$ 47,8 bilhões de 2005. A situação, porém, pode ser agravada em 2007 em função do elevado grau de endividamento do setor e da concentração de vencimentos no próximo ano, alerta a CNA.
Mauro Zanatta