Ruínas do sul baiano (A Tarde)

04/12/2006

Ruínas do sul baiano

 

Já testemunhei muitas mudanças, confesso-me fascinado pelo tema da decadência econômica em literatura ? mas nenhuma repentina e cruel como a que se abateu sobre o cacau no sul baiano.

Lavouras permanentes tendem a justificar o qualificativo. Jamais passaria pela cabeça de um produtor de cacau, até meados do século passado, que atividade econômica tão rendosa e de baixa mão-de-obra estivesse às portas da agonia.

Estava-lhe reservada uma surpresa maligna oriunda dos quintos dos infernos: a doença dos cacauais da Amazônia, "de cuyo nombre no quiero acordarme", como disse Cervantes a propósito de certo lugarejo na Mancha. Descoberta em Água Preta (o escritor Jorge Medauar recusava-se a pronunciar o nome de Uruçuca), ela comprovou, mais uma vez, o acerto daquela máxima judaica: é preciso diversificar o ganho.

É preciso não se deixar surpreender pela falta do pão de cada dia. Um avô meu, abastado porém pessimista (ou prevenido) puxava para si a tigela de coalhada, brandia a colher de sopa e convidava: "Vamos a esta coalhada, que amanhã não sei o que nos proverá o Senhor".

O cacau era tão boa lavra que, nos seus períodos de abastança, precisava apenas de chuvas regulares. A mistura de sol e chuva operava nos vales úmidos e nos cerros gotejantes o milagre da frutificação intensa, mais ou menos livre de pragas, causadas,
em geral, pelo excesso de umidade.

Falam na tal doença da Amazônia, que um dia haveria de chegar pelos corredores abertos sem proteção fitossanitária, e se esquecem as advertências que, já naquela época, eram feitas contra a monocultura. O produtor desenvolveu uma psicologia própria, de autosufiência: era um pequeno deus que, da rede na sacada da sede da fazenda, ou da casa luxuosa na cidade, mastigava um charuto Suerdieck ou Dannemann, enquanto calculava os números das safras vindouras.

Os bons ventos do cooperativismo que lhe chegavam do Centro-Sul, desatrelados pelos imigrantes europeus, não o sensibilizaram. Sequer ela criou um poderoso banco de fomento para socorrêlos em projetos de recuperação ou em permitirlhe a travessia de épocas de cotação baixa.

Criou uma geração de netos e bisnetos habituados ao luxo parasitário. Hoje, esse potentado vive modestamente de vender leite. A topografia sul baiana é inadequada à criação de gado vacum em larga escala, mas se tornou meio de subsistência, com a desvantagem de acelerar o desmatamento e secar os ribeiros residuais. A paisagem mudou: a sub-mata tropical é uma extensão
de campos onde o gado disperso, no máximo, cem reses vagueia. As propriedades onde antes os cacaueiros se adensavam, pejados, são pequenas para a pecuária intensiva. Ricas sedes de fazendas, com móveis e objeto de arte de fina lavra, estão em ruínas e vigiadas, dia e noite, contra assaltos. Sei que estou a desagradar muita gente com estes lampejos de memória. Mas é o que sei, o que vi e, pior de tudo, o que sinto.