Ave selvagem, mas produtiva
A dona-de-casa Agostinha Santos começou a criar codornas em uma área desocupada no, no quintal de casa, no bairro dos Pernambués, em Salvador. A produção de ovos e carne chegou a abastecer o bar do esposo e a integrar o cardápio de refeições do lar. Passados alguns meses, as cerca de 40 codornas começaram a enfrentar ratos e sarigüê.
Desanimada, a dona-de-casa interrompeu a criação. “Não valia mais a pena”, conforma-se O pequeno empresário Tomaz de Aquino tem uma história um pouco diferente. Ele levou alguns exemplares das 200 codornas que cria em uma fazenda, no município de Camaçari, para a Fenagro (Feira Internacional da Agricultura), na semana passada, no Parque de Exposições de Salvador.
Com experiência de mais de 20 anos, o empresário diz que é ele mesmo quem toma os devidos cuidados com o plantel, sem o auxílio de médico veterinário. Para limpar a granja e manter os predadores longe dos animais, Tomaz conta com os serviços de uma empresa desinsetizadora (que elimina insetos) da granja periodicamente.
Embora tenham experiências distintas, o empresário Tomaz de Aquino e a dona-de-casa Agostinha Santos dão exemplos de situações comuns na criação da codorna, uma ave que exige cuidados especiais e pode ser boa opção de renda para médios produtores.
O melhor sistema para criação das aves, segundo o especialista em codornas e professor Antonio Gilberto Bertechini, da Universidade Federal de Lavras (MG), é dentro de gaiolas, o que facilita o controle da produção. Os filhotes precisam de um clima mais quente nos primeiros dias, o que pode ser suprido com o uso de luz artificial ou aquecedor.
As gaiolas devem ter compartimentos que agrupem 30 aves, no máximo e serem colocadas em uma área tranqüila, à sombra e bem arejada.
O produtor não recomenda a criação ao ar livre. “A codorna mantém o estilo selvagem. Se deixar solta, ela voa, vai embora”, explica o especialista em criação de codornas, que lembra da necessidade de limpeza nas gavetas e da água de boa qualidade.
Falando para A TARDE Rural, a bióloga e médica veterinária Zenilda Franco, que presta consultoria a donos de granjas e ministra cursos de cotornicultura na Sociedade Nacional de Agricultura, no Rio de Janeiro (RJ), recomenda que as gaiolas fiquem dentro de um galpão próprio, feito de alvenaria e telhas de cerâmica.
Para ter uma produção equilibrada, o criador deve colocar não mais do que um macho, que fecunda de seis a oito fêmeas. A proporção de codornas, por sexo, ao nascer é a mesma: metade de machos e metade de fêmeas.
O tempo ideal para o abate da ave é aos 45 dias, época em que a carne está macia. Em termos de postura de ovos, a produção média é de 280 unidades por ano, entre os 45 dias e um ano de vida. No segundo ano, a produção cai para 200, de acordo com Antonio Gilberto, professor da Universidade Federal de Lavras (MG). O preço vai de R$ 2,50 a R$ 3 por 30 ovos.
Os animais de ambos os sexos são muito parecidos. O macho tem peitoral com cor mais vermelha ou laranja, sem traços pretos, enquanto que a fêmea apresenta coloração branca com pintas pretas.
Para a bióloga Zenilda, a criação de codornas é uma opção de bons rendimentos apenas para os criadores que mantêm acima de 5 mil aves. Isso porque, segundo ela, os produtos que compõem a ração, como o milho e o farelo de soja, têm preços variáveis ao longo do ano, influenciados pelo movimento da bolsa de valores e mercados.
A variação acontece também no preço de venda dos ovos, por influência de fatores climáticos. “As fêmeas podem ter um pico de postura de 90% no alto verão, enquanto que, nas outras épocas do ano, a média de postura é de 80% do potencial”, explica Zenilda Franco.
NUTRIÇÃO – A alimentação das codornas deve ser à base de ração, que muda a depender do ciclo de vida e destinação do animal. Até o 35º dia de vida, a ave deve comer ração indicada para essa fase, em quantidade de 10 gramas.
Daí em diante, escolhe-se a linhagem da ração pelo critério de a ave ser destinada à postura ou à engorda.
Na fase adulta, o consumo é de 11 a 15 gramas. A explicação é do zootecnista e nutricionista animal Reinaldo Kato. Ele, que trabalha em uma fábrica de ração, detalha a composição da ração: milho, farelo de soja, calcário, sal, microminerais, vitaminas e farinha de carne.
De acordo com a veterinária Zenilda Franco, só se deve recorrer à suplementação de cálcio se a casca aparecer mole e quebradiça, o que ocorre mais no verão.
A doença de Newcastle é a única que exige vacinação nos primeiros sete dias, alerta o professor Antonio Gilberto Bertechini. Os sintomas da enfermidade são cansaço, diarréia e até mesmo cegueira. A bouba, outro mal que ataca os filhotes e apresenta os mesmos sintomas, é prevenida com a limpeza dos reservatórios de água, gaiolas e vasos para ração e descarte dos animais doentes. Não há vacina específica para esse tipo de doença.
* 296 mil é a quantidade de codornas do plantel da Bahia (IBGE/2004), que está entre entre os dez maiores Estados do país. O primeiro lugar fica com São Paulo, com 2,3 milhões de aves, e o segundo com Espírito Santo, com 592 mil codornas.
A codorna criada no Brasil resulta do cruzamento de raças selvagens efetuados na China e Japão, segundo o Dicionário Rural do Brasil (2003), e sua criação tem se expandido por ser uma atividade que requer baixos investimentos e oferecer um retorno financeiro rápido.