Menor oferta e consumo forte elevam preço do café
Os produtores brasileiros de café vivem uma das melhores fases dos últimos anos, beneficiados pelo cenário de preços internacionais em ascensão por conta do déficit global do grão e de consumo mundial aquecido. Na última sexta-feira, os preços do café em dólar no mercado interno atingiram US$ 139,79 (saca de 60 quilos), a maior cotação desde de maio de 2005, quando a saca atingiu US$ 138, segundo levantamento do Escritório Carvalhaes, de Santos (SP). Entre 2002 e fim de 2004, a saca de café estava abaixo de US$ 100.
A boa notícia para os cafeicultores, apesar da forte valorização do real ante o dólar nos últimos meses, é que as perspectivas indicam preços firmes para o café no curto e médio prazo.
"Certamente estamos em uma boa fase para os preços do café", diz Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes. Apesar do preço mais alto em dólar, Carvalhaes observa que a cotação em reais subiu, mas ainda é inferior ao valor alcançado em maio de 2005, quando o café de boa qualidade atingiu R$ 390. Atualmente, a saca de boa qualidade está cotada em R$ 300.
A recuperação dos preços do café no mercado interno começou no fim de 2004 e teve seu pico entre maio e julho do ano passado. Depois de um período de estagnação, os preços voltaram a subir, sobretudo a partir de setembro deste ano, quando a seca prejudicou o período de florada dos cafés brasileiros.
Mais capitalizados, os cafeicultores estão segurando a produção. O ritmo de comercialização está lento, uma vez que as perspectivas futuras apontam preços atraentes.
"Se olharmos o histórico dos preços, os produtores brasileiros estão negociando melhor seu café", afirma Rodrigo Costa, operador da Fimat Futures. Nos últimos 12 meses, as cotações na bolsa de Nova York para o tipo arábica subiram 30,82%, conforme o Valor Data. Em 24 meses, 28,35%. Em Londres, o tipo robusta acumula alta de 35,24% em 12 meses e de 86,75% em 24 meses.
Analistas afirmam que os estoques mundiais deverão ser menores para a safra 2007/08, que começa a partir de julho de 2007 no Brasil, uma vez que a safra brasileira poderá cair 25%, para cerca de 32 milhões de sacas.
A redução dos estoques mundiais de café deverá sustentar os preços do grão no mercado internacional. O déficit mundial pode ficar entre 7 milhões e 8 milhões no fim da safra 2007/08, que se encerra em setembro de 2008.
"A reação dos preços do café já era esperada", afirma Alberto Portugal, diretor-executivo do Conselho Nacional do Café (CNC). Segundo ele, os produtores estão aproveitando essa boa fase para se capitalizar. Portugal lembra que cerca de 40% a 45% da safra de café - estimada em 44 milhões de sacas - foi comercializada. Neste mesmo período dos últimos anos, mais de 60% já tinham sido negociadas, uma vez que os produtores tinham mais pressa para fazer caixa.
É a primeira vez, desde o início da última crise de preços do grão, em 2001 - que durou até meados de 2004 -, que os cafeicultores têm fôlego para segurar as vendas dos grãos. Em 2005, quando os preços reagiram, os cafeicultores já tinham vendido boa parte de sua produção.
Nesta atual safra, a 2006/07, o governo federal liberou R$ 400 milhões para o custeio da produção, R$ 600 milhões para a colheita e R$ 800 milhões para estocagem, o que ajudou os produtores a segurar seus estoques. O setor cafeeiro conta com 300 mil produtores no país, dos quais 90% produzem abaixo de 300 sacas de café por ano, segundo o CNC.
Nos últimos anos, boa parte dos cafeicultores teve que diversificar a cultura para sobreviver à crise do setor. Agora mais capitalizados, eles começam a olhar de novo para as lavouras. Portugal lembra que essa capitalização está voltando para os cafezais. "Poucos investem em aumento de área. Os investimentos estão concentrados no aumento da produtividade, com os maiores tratos culturais", diz.
Segundo ele, parte do faturamento do setor é destinado para quitar os pesados endividamentos da cadeia. Somente com Pesa e securitização, as dívidas atuais somam cerca de R$ 3 bilhões, pagamento com prazo de até 20 anos.