Pacto de amizade facilita relação entre o homem e o cavalo
Passou a época em que o cavalo servia apenas para auxiliar o homem na lida com o gado, puxar o arado na lavoura e na montaria, muitas vezes, sob violência. Atualmente, em várias regiões do País, mais no Sul e Sudeste, este relacionamento segue técnicas humanizadas – mundialmente denominadas de horsemanship –, com auxílio da psicologia.
No filme “O encantador de cavalos” (The horse whisperer, EUA/1998), um rancheiro (Robert Redford) vale-se desta técnica no tratamento de um animal que ficou arredio após um acidente, com a morte de uma adolescente.
O termo horsemanship vem do inglês, da corruptela de relationship (relacionamento), horse (cavalo) e man (homem). Em português, passa a ser denominado doma racional, uma filosofia de relacionamento entre o homem e o cavalo do ponto de vista do animal.
“É baseado na confiança e cooperação que surge entre ambos”, explicou para A TARDE Rural o empresário José Luiz Passos, que aplica a técnica em seu rancho, no município de Mogi das Cruzes (SP).
A filosofia da doma, diz ele, assentase no tripé observação, tempo e ação. “Na primeira fase, da observação, o homem lê os sinais, identifica a natureza e atenta para o comportamento e estado de espírito do animal”, ensina o domador.
O fator tempo envolve a capacidade de o homem esperar que o cavalo responda ao que está sendo solicitado por ele.
“Quando o cavalo não atende, ou ele não entendeu, ou não teve tempo para responder, ou está fazendo outra escolha, que pode parecer errada ou ruim ao homem, que vive em uma sociedade marcada pela premência do tempo”.
Na terceira fase, o homem dá comandos para a doma gentil, partindo de que o cavalo tem como emoção dominante o medo.
“Todas as decisões do cavalo são de vida e morte. A primeira reação dele é a fuga. A segunda, de defesa.
Entendendo isso e seguindo os três passos do horsemanship, o domador estabelece um elo de confiança entre ele e o cavalo”, finaliza José Passos, calculando que menos de 3% dos cavalos brasileiros são tratados pelo método.
Outro especialista, o médico veterinário AloísioMarins, diretor da Universidade do Cavalo, localizada entre as cidades de Sorocaba e Salto de Pirapora, em São Paulo, enumera três pilares de sustentação da criação de cavalos na atualidade: o esporte, o lazer e o trabalho de fazenda, sendo que as duas primeiras, destaca ele, são as de maior predominância.
“Há uma diversificação muito grande de modalidades de esportes eqüestres e há cavalos cada vez mais adequados a cada modalidade.
Muitos possuem o cavalo apenas apenas para montar no fim de semana, mas, seja qual for o caso, o horsemanship facilita o dia-a-dia com o animal”, diz Aloísio Marins, que promoveu o IV Encontro Internacional de Horsemanship, 15 e 16 passados, em Sorocaba.
ANIMAL DE REBANHO – A médica veterinária Denise Fernandes, especialista em comportamento eqüino, também difunde o horsemanship.
Proprietária do Centro Eqüestre Gallop, no Rio Grande do Sul, ela faz doma, iniciação de cavalos para esportes, correção comportamental e dá consultoria à polícia montada do Estado.
De acordo com a veterinária, o horsemanship ainda não é muito conhecido entre as pessoas que lidam com cavalos, potros e éguas.
"As pessoas se surpreendem quando mostramos, na pista, que um animal violento com a maioria dos domadores se comporta bem com quem conhece as técnicas", conta a Denise Fernandes.
A treinadora frisa que o principal erro na doma é a tentativa de lidar com o cavalo a partir das regras dos homens, em detrimento da linguagem do cavalo. Defende que não é preciso o cavalo estar saudável fisicamente, mas, também, emocionalmente.
A especialista lembra que a primeira lei que o cavalo observa é a da sobrevivência. Quando tratado indevidamente, reage de modo arredio e intemperante. O homem é um caçador, tem comportamento de caçador; o cavalo é animal de fuga, não de ataque, tem os olhos na parte lateral da cabeça, para se defender de predadores. “É um animal de rebanho, não fica sozinho.
No campo, precisa do grupo para segurança e faz aliança com outros animais para se sentir seguro", explica, ressaltando que se o homem também fizer esta aliança, ganha a confiança do cavalo.