No curto prazo, elevação do endividamento é obstáculo
Os atuais sinais positivos de recuperação dos preços agrícolas e de redução nos custos de produção devem ser insuficientes para melhorar a rentabilidade do segmento de grãos e superar de vez a crise iniciada em 2004. Um levantamento recém-concluído pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) revela, pela primeira vez, o tamanho do endividamento do setor e alerta que isso pode impedir a retomada definitiva do setor no próximo ano.
A pesquisa do economista Gervásio de Castro Rezende, obtido pelo Valor, traduz o problema ao apontar que a relação entre a dívida e o PIB do setor agropecuário saltou de 35,5%, em 2004, para 54,8% na projeção para este ano. Em termos absolutos, a dívida total agrícola passou de R$ 18 bilhões em janeiro de 1999 para nada menos do que R$ 50 bilhões no mês de dezembro de 2004.
Os números, fornecidos pelo Banco Central, evidenciam um descontrole ao revelar que a média do endividamento dos últimos nove anos foi de 35,1%. Assim, fica claro que não foi apenas o câmbio desfavorável ou a seca no Sul e parte do Centro-Oeste que levaram a uma das piores crises de renda do setor. No governo, já se admite a necessidade de uma nova renegociação dos débitos em 2007. O setor privado iniciou sondagens.
O estudo do IPEA indica um "excessivo endividamento", sobretudo no crédito de investimento. Nesse caso, a relação dívida/PIB aumentou de 17,7% para 27,8% desde 2004. Rezende diz que as dívidas do setor, após registrar um grande aumento no período recente do boom agrícola - entre 1999 e 2004 - em função da elevação dos custos fixos da atividade via aquisição de máquinas, também sofreu um aumento adicional nos dois anos de crise (2005-2006).
Isso ocorreu principalmente por causa da conversão das dívidas no mercado informal de crédito, estimadas em cerca de R$ 7,2 bilhões, em débitos atrelados ao sistema oficial de crédito. "O que mais preocupa é o risco de essa dívida agrícola maior neutralizar os sinais de recuperação do setor", afirma Rezende.
No estudo, o economista foi além dos saldos devedores originais, utilizando uma estimativa de R$ 9 bilhões em dívidas transferidas dos bancos federais para o Tesouro Nacional em 2001. Em termos absolutos, o trabalho permite ver que entre 2005 e 2006 houve um acréscimo de R$ 15 bilhões nas dívidas agrícolas de custeio e investimento.
Em seu levantamento, Gervásio Rezende afirma que a atual crise financeira do setor tem origem na soma do forte crescimento anterior da dívida agrícola e as obrigações financeiras decorrentes dessas operações.
Segundo ele, outros dois fatores ajudam a compor esse cenário: a concessão de novos créditos - inclusive para permitir a quitação dos débitos contratados com as agroindústrias - e as sucessivas prorrogações dos pagamentos, inclusive dos juros.
"Essa vinculação entre a crise atual e o crescimento da dívida agrícola cria um problema novo, e que deverá frear a retomada do crescimento agrícola futuro, mesmo em condições mais favoráveis de rentabilidade", diz o economista. Para superar a armadilha, Rezende aponta como medida para dirimir a crise restringir o "crédito farto" para investimento rural e o financiamento de máquinas pelas montadoras com fundos públicos. (MZ)