Enchente e seca no sudoeste

10/01/2007

Enchente e seca no sudoeste

O município de Malhada, a 900 km de Salvador, no sudoeste do Estado, continua em estado de calamidade e a situação pode se agravar caso as comportas da barragem das Três Marias, em Minas Gerais, sejam novamente abertas. A inundação está a menos de 500 metros da sede da cidade. Enquanto a parte baixa de Malhada sofre com a enchente, a parte alta agoniza com a seca. O paradoxo se explica pelo fato de a região, encravada no semiárido do Estado, não registrar chuvas há mais de cinco meses, ao mesmo tempo em que os temporais no norte de Minas Gerais, fazem transbordar o Rio São Francisco, que corta a cidade baiana.A abundância de água e a ausência dela, a depender da localidade, devastaram 95% das culturas de subsistência, conforme relatório oficial da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Agricultura.O secretário, José Castor de Abreu, diz estar surpreso com a força da natureza.“É um quadro incrível: enchente e seca numa só região”, conta Abreu, informando que não existe mais reserva alimentar na zona rural, seja para humanos, seja para animais. “Não temos mais nada, nem milho, nem feijão, nem mandioca e até a pastagem para o gado está perdida”.SOLIDARIEDADE – Para os que, mesmo diante das perdas, relutam em permanecer em suas terras – ou o que restou delas, estão sendo providenciadas canoas, barcos e balsas, caso mudem de idéia. Nesse cenário floresce o espírito de solidariedade.“Os moradores que não foram atingidos oferecem abrigo, fazem doações, ajudam de alguma forma”.As emissoras de rádio repercutem a cada hora a situação e buscam sensibilizar a comunidade, pedindo doações para os desalojados, tanto em Carinhanha, quanto em Malhada – cidades da Bahia separadas pelo Rio São Francisco.As chuvas na cabeceira do São Francisco e dos seus afluentes são registradas há mais de 40 dias, gerando um aumento nos reservatórios de hidrelétricas, como em Três Marias. O volume de água ganha reforço também dos rios Urucaia, das Velhas e Aracatu, todos com nascentes em solo mineiro.“A água que cai em Minas reflete diretamente aqui em Malhada por isso se a chuva persistir mais um pouco temos que nos preparar para o pior”, estima o técnico em agropecuária João Abdias Pires.Embora não chova na região há mais de duas semanas a situação crítica por causa das enchentes que atinge diretamente os moradores, moradores, enquanto que a seca afeta as lavouras, em pleno semiaacute;rido.O Rio São Francisco tem dado demonstrações de força e justificado a fama de imponente. Por causa do balanço das águas, nos últimos dias, um caminhão carregado de carvão vegetal que fazia travessia de balsa para Malhada tombou outros nove ficaram atolados nas estradas vicinais.Os municípios de Malhada Carinhanha (este banhado pelo São Francisco), já foram cobertos pelas águas em outras duas ocasiões: em 1979 e 1992. “Já se passaram 14 anos e esses dois municípios começam a lembrar dos estragos causados naquela época, pois as águas, atualmente, voltam a subir de forma rápida”, disse o radialista Sérgio Silva.ELEVAÇÃO – O rio está a quase metros acima do nível, sendo que em outras enchentes o nível das águas alcançava, em média, de 5 6 metros. Como conseqüência dez casas foram destruídas e pelo menos 300 famílias foram expulsas pelas águas, que ainda invadiram lavouras de milho, feijão e mandioca.Os mantimentos foram inutilizados ou lavados pela correnteza do Rio São Francisco. Comunidades inteiras estão isoladas e em algumas nem mesmo o acesso por barcos é recomendado por causa da força do rio.O município tem 15 mil habitantes e só não está totalmente isolado por causa da ligação com BR-030, que une a sede ao município de Guanambi. O isolamento total, no entanto, não está descartado porque as águas da Lagoa do Mucambo, nos fundos de Malhada, pista. Na estrada vicinal que conduz às localidades de Mucambo e Canabrava, a água chegou com força e está acima da ponte. A passagem de veículo de passeio não é mais recomendada.A localidade mais afetada é a Ilha das Melancias, pedaço de terra com 250 metros de largura, dos quais apenas 50 metros ficaram livres da enchente. São 3 quilômetros de extensão, mas somente dois estão livres.“O restante está encoberto e as famílias passam dificuldades”, conta o lavrador Manoel Farias, que lidera a força voluntária na cidade.A ilha fica a 15 km da sede do município. Enquanto a ajuda oficial não chega, a prefeitura, por meio da Secretaria de Agricultura, providencia colchões, alimentos, roupas e cestas básicas. “O povo só ficou mesmo com a roupa do corpo e com a vontade de viver porque o resto a água arrastou tudo”, relata.Os desabrigados foram alojados em escolas, centros comunitários e em casas de farinha.O quadro não é diferente para outras 40 famílias ribeirinhas surpreendidas pela cheia nas comunidades de Canabrava, Ressaca, Rasgão, Ilha de Malhada, Ilha de Zezé, Cachoeira, Pedrinhas e Pau d’Arco. As remanescentes de quilombos, Tomé Nunes e Parateca, estão ilhadas.Desde que decretou estado de calamidade o prefeito Anselmo Boa Sorte (PL) trocou o veículo oficial por um barco e percorre as áreas alagadas juntamente com o secretário de Agricultura e Meio Ambiente, José Castor de Abreu.