Criado mutirão em prol do cacau

11/01/2007

Criado mutirão em prol do cacau

Um grupo de trabalho formado por 30 pessoas, entre especialistas de universidades, representantes de bancos públicos, ministérios da Agricultura e Fazenda, além de membros do governo baiano e produtores rurais, terá um prazo de 60 dias para estudar, discutir, resolver a situação da lavoura cacaueira e apresentar alternativas de culturas para a região sul da Bahia.
A informação é do presidente da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), Gustavo Costa de Moura, que esteve em Salvador para a posse dos novos dirigentes dos órgãos da Secretaria de Agricultura do Estado, acrescentando que a portaria de criação do grupo deve ser editada ainda esta semana pelo Ministério da Fazenda.

Moura disse ter acompanhado a formação de outros dois “mutirões” para se tentar resolver a questão da crise cacaueira, mas os trabalhos sempre “empacavam”, antes da apresentação de uma solução.
“Existe agora uma vontade dos governos federal e estadual.
Houve conversas entre os dois governos”, disse, para diferenciar das iniciativas anteriores.
Revelou que o grupo, além de fazer uma análise da situação atual da lavoura do cacau, vai “traçar uma política de reestruturação da região cacaueira. Isso deve entrar pelo problema do endividamento e pelo problema da diversificação (de lavouras)”. Segundo Moura, “houve um acerto feito pelo ex-ministro e hoje governador da Bahia Jaques Wagner para se dar uma solução definitiva e estruturante, resolver não só o problema da dívida, mas o do fomento de novas culturas”. Ele citou que a região sul dispõe de várias opções. “O dendê é delas. A Bahia tem no baixo 250 mil hectares de área de dendê disponível, tudo espontâneo.

Tem a pupunha, a seringueira alavancada pelo preço, que era US$ 400 dólares (a tonelada) e está a US$ 1,6 mil, e com perspectiva de subir muito mais, pois demanda por borracha é muito grande”.
Conforme o presidente da Ceplac, não há resistência cultural produtores do sul da Bahia para abandonarem a monocultura cacaueira. “A grande questão da região passa pela resolução do principal problema da lavoura cacaueira, o endividamento. A pessoa, às vezes, tem área disponível, mas todo aquele seu patrimônio está em garantia a um débito.
Com isso, muitas vezes o produtor não tem a flexibilidade de poder abrir novas áreas (de plantio) e diversificar”.
Moura admite que, embora os débitos dos cacauicultores estejam sendo prorrogados a cada seis meses, os produtores não podem pagar, devido a uma série de fatores.
“Enfrentamos hoje preço baixo, um custo de produção que subiu e um produto que chegou a ter preço de R$ 140 a arroba e fechou o ano a até a R$ 42”, citou, ressalvando, contudo, que, nesse início de ano, o preço da arroba registrou uma pequena recuperação, chegando a R$ 52. Os problemas inviabilizaram o pacote tecnológico de recuperação dos cacaueiros. “A queda de produção impediu que o produtor pudesse honrar seus compromissos financeiros”, reforçou.
Em 2005, o Brasil colheu 170 mil toneladas de cacau e, no ano passado, 130 mil.

PRODUTORES – A criação do grupo de trabalho é vista com cerca descrença pelos cacauicultores baianos. “Quando a gente quer resolver algo, resolve. Quando não quer, cria comissão. Os estudos já estão todos prontos. Todos sabem que o maior problema hoje é falta de capital, estamos todos endividados”, comenta o produtor Guilherme Galvão.
O produtor responsabiliza a Ceplac pelo agravamento da crise entre os cacauicultores, por ter sugerido um pacote tecnológico que prometia uma produtividade de 100 arrobas por hectare, no prazo de cinco anos. “A produção média que conseguimos é de, no máximo, 13 arrobas por hectare, então, como pago ao banco? A Ceplac tem de admitir que errou”, protesta Galvão, que tem propriedade nos municípios de Itajuípe, Barro Preto e Firmino Alves.
Produtor há 21 anos em Camacan, Deroaldo Andrade endossa os comentários de Guilherme Galvão e se diz preocupado com a possibilidade de o grupo apenas postergar o problema e nada resolver.
“Mas como Gustavo (Costa de Moura) também é produtor de cacau e sabe exatamente o que aconteceu com a lavoura, isto nos dá um pouco de esperança. Mas não é otimismo excessivo”, frisa.

O cacauicultor e diretor da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Feab), Fernando Botelho, ressalta que é preciso resolver definitivamente o problema da lavoura cacaueira. “É um problema estrutural e passa, primeiro, pela solução do endividamento e revisão do programa de recuperação da lavoura que não deu certo”. Ele lembra que a solução também inclui a diversificação com outras culturas e agroindústria.