Pesticida é usado no plantio de café e cacau

19/01/2007

Pesticida é usado no plantio de café e cacau

A Vigilância Sanitária de Barra do Choça, a 530 km de Salvador, notificou preliminarmente seis cafeicultores pela falta do uso de equipamento de proteção individual (EPI) e aplicação de defensivo agrícola às margens das barragens Água Fria I e II. Em Itabuna, na região sul do Estado, o uso do pesticida Endosulfan no plantio de cacau é praticamente tradição.
Embora os órgãos fiscalizadores ambientais proíbam plantios de qualquer espécie margeando mananciais, o desrespeito é flagrante.
Um dos pesticidas aplicados nessas plantações é o Endosulfan, produto de venda controlada e só acessível mediante receituário agronômico.

CACAUAIS – Quando aplicado nos cacauais, o produto é lançado na copa da árvore, sobre as folhas e os frutos, e a recomendação é que a dosagem deva ser obedecida, evitando o contato do produto com o solo, que caso seja contaminado, pode chegar aos lençóis freáticos, trazendo conseqüências graves ao meio ambiente.
Aplicado em superfícies que sofram ação do intemperismo, o Endolsufan, por possuir cloro ativo em sua composição, tem sua molécula quebrada e se hidroliza em cerca de 30 dias, perdendo poder de envenenamento. No caso de contaminação dos lençóis freáticos, ao contrário, ele fica protegido da ação do sol e da chuva e perdura por muito mais tempo, contaminando as nascentes dos rios e, por conseqüência, todo o seu leito.

“Quem consome água contaminada pelo produto está exposto a doenças como o câncer”, adverte o agrônomo Reuber Matos. A condição de “faixa vermelha” deixa claro que o perigo é grande para o meio ambiente, para quem aplica e para o consumidor final, se usado fora da dosagem estabelecida pelo fabricante ou por agrônomos.

CARÊNCIA – “O aplicador deve estar munido de EPI, com botas, macacão, luvas, máscaras, óculos; não deve fumar ou se alimentar durante a aplicação e aplicar nas horas mais frias do dia”, diz Matos.

O agrônomo adverte, ainda, para a carência do produto. “Uma vez usado, o produtor deve respeitar um período de tempo para a colheita, evitando assim que o resíduo do agrotóxico vá à mesa do consumidor”.

O Endosulfan só é recomendado para uso nas lavouras de algodão, café e soja, mas não é bem isso o que ocorre em lavouras no sudoeste, por exemplo. Às margens da barragem de Anagé, a 560 km de Salvador, produtores usam o produto em coqueiros.

“Isso é crime porque o produto não foi concebido, pesquisado para ser usado, por exemplo, na cultura do feijão, do coco, o que seja.

Ele só foi aprovado para as três culturas que citei”. O produto é perigoso e, conforme Matos, altamente letal. “O aplicador pode ser intoxicado também via dermal (pele) e não somente via oral, como muitos imaginam”, continua.

Ele também chama a atenção para o descarte indevido da embalagem, às vezes jogadas às margens de estradas ou nos rios.

“Foi feito um trabalho na região Sudoeste e, mais especificamente, em Conquista, temos uma central que recebe estas embalagens. O produtor é obrigado a devolver o vasilhame, dentro de um ano, lavado três vezes”, explicou.

O não cumprimento sujeita o infrator à multa e reclusão de um a quatro anos, conforme lei federal.

Até pouco tempo, as embalagens eram reutilizadas como recipientes para água e leite. Novas notificações devem ser aplicadas assim que o órgão retomar as investigações ao longo das fazendas de café às margens da nascente do Rio dos Monos, em Barra do Choça. O rio, que abastece o município e alimenta duas barragens, voltou a receber carga de agrotóxicos a exemplo do que ocorreu em 2003.