Soluções tecnológicas para cultura da cana no Nordeste
Enquanto produtores, no Sul do País, colhem com facilidade 100 toneladas de cana-de-açúcar por hectare, nas tradicionais regiões do Norte e Nordeste, os canaviais precisam ser irrigados até três vezes por dia para que possam produzir 70 toneladas por hectare.
Mas o quadro poderá ser revertido, ou, pelo menos, formas estão sendo estudadas na busca de soluções tecnológicas para melhorar a cultura da cana nas duas regiões.
"São pesquisas fundamentais que fazemos em parceria com nossos colegas da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília", diz o pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros, em Aracaju (SE), Antônio Dias Santiago.
Entre esses estudos se destaca o desenvolvido pela Embrapa Agrobiologia, em Seropédica (RJ), no seqüenciamento do genoma da bactéria Gluconacetobacter diazotrophicus, responsável pelo processo de fixação biológica de nitrogênio do ar, ação que que permire a redução no volume de adubo nitrogenado nos canaviais (A TARDE Rural de 8/1/2007). Um dos pontos das pesquisas sobre a cana no Norte e Nordeste, com foco na fixação biológica do nitrogênio (FBN).
"A intenção é diagnosticar a contribuição da FBN em 10 variedades de cana-de-açúcar, identificar estirpes de bactérias diazotróficas nas regiões Nordeste e Norte, desenvolver um inoculante contendo mistura de bactérias e, também, a tecnologia da inoculação na cana", resumiu para A TARDE Rural a pesquisadora Walane de Mello Ivo, da Embrapa Tabuleiros Costeiros, informando que as primeiras coletas de solo e raízes de cana já foram feitas em Alagoas.
Orçado em mais de R$ 4,8 milhões, o estudo tem assegurados para os próximos quatro anos R$ 2 milhões. Para este ano, há R$ 380 mil para trabalhos que vão analisar, entre outros pontos, a criação de cultivares resistentes a pragas.
Diz a pesquisadora que a expectativa é que os resultados do projeto atendam a algumas das principais demandas do setor, principalmente gerando soluções tecnológicas para problemas como défcit hídrico e controle da broca gigante; esperase que os primeiros resultados sejam obtidos dentro de três anos.
TRABALHO
– O pesquisador Antônio Dias Santiago informou que seis linhas de trabalho, ou projetos componentes, como prefere denominar, começam a ser avaliadas este ano. A primeira busca melhorar geneticamente as variedades da cana-de-açúcar existentes, para obter materiais resistentes à broca gigante, principal praga que ataca a cultura no Nordeste, e materiais tolerantes à seca, o que significará redução de custos.
O zoneamento e a previsão de safra da cana-de-açúcar também começam a ser estudados. "A expectativa é que dentro de três anos tenhamos resultados", avalia Antônio Santiago. No momento é possível adiantar que pelo menos três Estados podem ser considerados áreas promissoras ao plantio: Tocantins, Piauí e Maranhão.
Os pesquisadores da Embrapa já estudam o que chamam de cenário futuro, no qual serão avaliados os impactos econômico, social e ambiental que as lavouras de canade-açúcar provocam ou poderão acarretar, em especial nas áreas de expansão. “A idéia é evitar a introdução da cultura em regiões nas quais há risco de prejuízos”, comenta Santiago, ao observar que o estudo é feito pela Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP).
Na Unidade de Execução de Pesquisa, em Rio Largo (AL), a 35 quilômetros de Maceió, a Embrapa Tabuleiros Costeiros conduzirá também o projeto de desenvolvimento de tecnologias para aprimoramento dos sistemas de produção da cana. O trabalho vai estabelecer sistemas para a cana colhida sem despalha a fogo, definir demandas hídricas e lâminas de água, desenvolver técnicas de controle voltadas para o manejo integrado para a broca gigante e otimizar o uso de nitrogênio e dos resíduos da agroindústria canavieira.
Embora conduzidos pela Embrapa Tabuleiros Costeiros, os estudos têm forte interação com a Embrapa Agroenergia e integram profissionais de outros centros de pesquisa da empresa e parceiros de universidades federais e da iniciativa pública e privada. Essa característica, de atuação em rede, permite flexibilidade para desenvolver estudos que, apesar de avaliarem diferentes objetos, têm um único foco: a sustentabilidade da cadeia da cana-de-açúcar.