Danos ambientais

26/01/2007

Danos ambientais
 
  

Nos 115 municípios banhados pelo São Francisco, 90% do lixo urbano é jogado no rio. O Velho Chico está com 95% das matas ciliares destruídas. Esses dois fatos, que tornam mais crucial o processo de assoreamento do rio, foram detectados pelo Projeto de Fiscalização Preventiva da Bacia do São Francisco (SPI São Francisco), feito por especialistas de instituições como o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia da Bahia (Crea-BA) e órgãos públicos federais e estaduais. “O governo está consciente de tudo isso”, disse o presidente do Crea-BA, Jonas Dantas.


Para o dirigente do conselho, o posicionamento adotado pelo governador Jaques Wagner na questão deve ser analisado pela sociedade. Assim como Dantas, o coordenador executivo do Grupo Ambientalista da Bahia (Gamba), Renato Cunha, desaprovou a proposta de transferir água do Velho Chico e os recentes comportamentos governamentais. Na opinião dele, faltou sensibilidade quanto à situação da bacia e a consulta à população prometida não foi efetivada.


“O governo federal tinha feito um acordo de dialogar com a sociedade. Essa conversa começou a ser feita no ano passado, mas foi interrompida”, relatou Cunha. Tal promessa foi feita publicamente quando da greve de fome do bispo de Barra, dom Luiz Flávio Cappio, em 2005. O compromisso foi firmado pelo então ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner.


Segundo Jonas Dantas, a urgência da revitalização do rio é evidenciada também pelas quedas na navegabilidade e na taxa de piscosidade (prevalência de peixes). Na região baiana de Xique-Xique, exemplificou o presidente do Crea-BA, já registrou uma produção anual de 58 mil toneladas de surubim e, atualmente, não chega a dez mil toneladas/ano do peixe. “Há um comprometimento da quantidade e da qualidade do pescado”, disse.


Renato Cunha revelou que a obra vai causar deslocamento de terra para dentro do São Francisco e os danos também serão sentidos pela fauna e a flora. “Toda a biodiversidade será afetada”, lamentou. “Haverá perda para o equilíbrio da cadeia alimentar”, concorda Dantas.


O representante do Crea considera a obra equivocada tecnicamente. De acordo com ele, o próprio projeto prevê um custo da água de R$0,11 o metro cúbico e o preço praticado agora é de R$0,02 por metro cúbico. O custo alto é acarretado pelas elevatórias planejadas e pelo dispêndio de energia. “Com os preços altos, será completamente incompatível para qualquer atividade econômica”, alerta. Está previsto, na polêmica proposta federal, o transporte de água por cerca de 700km de canais a céu aberto. “Vai haver grande evaporação”, declarou Jonas Dantas. Segundo Renato Cunha, o que precisa ser feito é melhorar a gestão dos recursos hídricos nos estados que serão contemplados com a transposição. “É uma região que tem água em boa quantidade, mas mal aproveitada.”


O Gamba e o Crea-BA são duas das mais de 60 entidades do Fórum Permanente de Defesa do Rio São Francisco, que se reúne hoje para definir medidas de reação ao anúncio da União de que a transposição começará a ser executada no próximo mês. Entre as alternativas de mobilização, novas ações judiciais e requisitar audiências com os governadores Jaques Wagner (Bahia) e Marcelo Déda (Sergipe).