Drama bem perto da capital
Em pleno século XXI, famílias ainda vivem sem água encanada, energia elétrica e infra-estrutura sanitária, mesmo morando próximas de centros urbanos. Nos municípios de Euclides da Cunha, Monte Santo, Cansanção e Nordestina, todos situados a menos de 400 quilômetros de Salvador, o que deveria ser exceção, faz parte do cotidiano. Mulheres e crianças nos açudes lamacentos em busca de água e animais magros – alguns mortos na beira das estradas – por falta de alimento.
As irmãs Suzana, 21, e Raimunda Patrícia de Souza, 29, sabem bem o que é isso. Elas retiram água de um local lamacento, próximo da rodovia BA-120 (a Estrada do Sisal), entre os municípios de Cansanção e Nordestina. A água, apesar da cor amarelada e cheia de larvas, é para cozinhar, tomar banho e beber. “É a que temos”, diz a mais nova. A aguada está secando, pois além da retirada de água por famílias da região, ainda serve de meio para abastecer o pouco gado e bodes ainda são criados na região.
As duas moram com outras três pessoas no meio da caatinga. Estudaram só até a 3ª série de ensino fundamental (o antigo primário) e têm medo de fotografia. “Podem usar isso para nos tirar o Bolsa Família”, diz Raimunda, referindo-se à única fonte de renda da família. O pai está desempregado e a mãe doente. “Ele (o pai) vive de roça em roça em busca de trabalho, que quando acha, dá ganho de R$ 7”, diz Raimunda.
NA BEIRA DA ESTRADA – A água, mesmo quando é imprópria para o consumo, é disputada por todos.
Na Fazenda Juá, de Antônio Araújo, próximo à entrada do município de Nordestina, ela é armazenada num tanque cavado na entrada da propriedade. É lamacenta, mas nem por isso menos disputada pelas famílias que moram nas proximidades.
O agricultor José de Jesus Santos, em Cansanção, é um dos que diariamente pega água no local.
“A gente mistura com sal para matar os bichos e depois coamos, para só então beber”, diz José.
No povoado de Contendas, próximo ao município de Euclides da Cunha, a 320 quilômetros de Salvador, Isidora Maria de Santana, 29 anos, dois filhos, consegue água de um tanque, a dois quilômetros da casa. Apesar de estar a menos de 15 quilômetros da cidade, não tem água e luz elétrica. O marido não acha trabalho e ela vive com os R$ 80 do Programa Bolsa Família. “A gente um dia come e no outro se lembra do que comeu”, diz.
Mais adiante, num outro povoado, Laginha, a 13 quilômetros de Monte Santo, a família de Terezinha Clara Torres de Souza, teve mais sorte. Juntou-se a duas outras famílias e pagou R$ 35 por uma “carrada” de água de nove mil litros, que lhes dará certa tranqüilidade pelos próximos 15 dias. “Depois disso, é ver se conseguimos dinheiro para comprar mais água”.