Frigoríficos de carne bovina vão à bolsa

06/02/2007

Frigoríficos de carne bovina vão à bolsa


 

O maior frigorífico de carne bovina do país, o Friboi, solicitou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) registro para abertura de seu capital, numa ação inédita no setor e que deve ser seguida por outras empresas do segmento, como Bertin e Independência, no médio prazo. 


A JBS S/A, controladora do Friboi, que faturou R$ 4,324 bilhões em 2006, protocolou ontem o pedido de registro para oferta pública de "ações ordinárias, nominativas, escriturais, sem valor nominal, de emissão da Companhia", (...) "que compreende a distribuição pública primária de Ações de emissão da companhia, com exclusão do direito de preferência de seus atuais acionistas" (...) e a distribuição pública secundária de ações de titularidade do acionista. A operação deve ser coordenada pelo J.P. Morgan e pelo UBS Pactual S.A, conforme minuta da oferta. 


Segundo o documento, "serão realizados esforços de colocação das Ações no exterior, em operações isentas de registro na Securities and Exchange Commission (SEC), (...) para investidores institucionais qualificados". Procurada, a JBS S/A não se pronunciou. Mas a minuta da oferta informa que a intenção da empresa é utilizar a maior parte dos recursos obtidos com a oferta primária na expansão e modernização das unidades de abate e aquisições. O restante será capital de giro. 


 
 


Apesar da intenção do Friboi de abrir capital já ser conhecida, a rapidez com que a empresa deu o primeiro passo surpreendeu analistas experientes desse mercado. A abertura de capital é considerada uma caminho natural para o segmento, que se profissionalizou nos últimos anos, com o avanço da atividade, principalmente em decorrência do aumento das exportações de carne bovina. 


Para se financiar, empresas como o Friboi, foram ao mercado de bônus captar recursos. "Abrir capital é a maneira mais saudável de se financiar, de obter dinheiro com custo zero", comentou um especialista do setor. Esse mesmo analista, observou, porém que o pedido de abertura de capital veio antes do esperado, já que o setor, incluído aqui o Friboi, tem passivos fiscais a serem liquidados, como o antigo Funrural, contribuição previdenciária sobre a aquisição de produtos agrícolas. "Acreditava que fossem liquidar o passivo fiscal antes disso [pedido de abertura de capital]", comentou. 


Outros frigoríficos também se movimentam rumo à abertura de capital. O grupo Bertin, segundo maior exportador de carne bovina, está concluindo o processo de integração dos custos de produção à contabilidade, segundo fontes que acompanham o processo. O procedimento é necessário para dar maior transparência aos demonstrativos de resultado da empresa. O grupo também se prepara para deixar de ser uma companhia limitada para se tornar uma Sociedade Anônima). Conforme essas fontes, processo de IPO do Bertin pode demorar cerca de três anos para ser concluído. 


O Marfrig também se movimenta para seguir o mesmo caminho. O grupo se prepara para se tornar uma S/A, diz uma fonte que acompanha o processo. O próximo passo do Marfrig será a adequação da empresa para o sistema contábil pelo Padrão Internacional de Demonstrações Financeiras, conhecido como IFRS , na sigla em inglês. 


Os trabalhos de auditoria da companhia para a adequação ao sistema contábil internacional já começaram, afirma a mesma fonte. O ajuste é necessário porque o Marfrig tem plantas no Uruguai, Argentina e Chile e é preciso que o balanço da empresa esteja contabilizado em uma moeda única. 


Outra empresa que se organiza para abrir o capital no futuro é o Independência, disse, em entrevista ao Valor, em Paris, em outubro passado, o empresário Miguel Russo, presidente do grupo. Ele não detalhou o processo. Bertin e Marfrig não comentaram. 


Um analista do mercado observa que o interesse do setor de carne bovina em abrir capital é um marco para os órgãos reguladores e afirma que "não é tão simples" avaliar tais pedidos, por se tratar de um segmento até "pouco tempo malvisto, mal-estruturado e mal-administrado e que sofreu um grande estigma, assim como o setor de açúcar e álcool, por ser um setor pouco regulamentado". 


No prospecto, o Friboi elenca os riscos do negócio e detalha a questão dos passivos fiscais. "Somos parte em diversos procedimentos judiciais e administrativos decorrentes do curso de nossos negócios, especialmente relacionados ao Novo Funrural. Desfechos desfavoráveis nesses procedimentos podem afetar adversamente e de forma material nosso negócio (...), afetando adversamente o preço de mercado de nossas ações". Apoiada em mandado de segurança, a JBS não recolhe nem deposita qualquer valor referente à contribuição ao Novo Funrural e estimou, em 31 de dezembro de 2006, que uma decisão contrária a ela, da Justiça, pode gerar um "efeito econômico de R$ 81,6 milhões". 


Há ainda outros riscos, como o sanitário. Com unidades no Brasil e na Argentina, o Friboi admite, na minuta, que seus negócios podem ser afetados, em caso de surgimento de febre aftosa nos dois países. Menciona ainda possíveis penalidades caso o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) decida condenar empresas do setor num processo aberto por suposta formação de cartel.