Endividamento do campo chega ao valor do custeio de uma safra
O endividamento rural é hoje o equivalente ao financiamento de uma safra inteira, segundo estudo que está sendo feito pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), informado com exclusividade a este jornal. Estima-se que todas as dívidas do campo somem R$ 110 bilhões, incluindo os débitos já rolados e os atuais.
Diante deste quadro, o setor rural pretende voltar a negociar suas dívidas. A proposta é que uma subcomissão na Câmara dos Deputados analise todos os projetos que envolvam o endividamento do agronegócio. Parte é endividamento antigo, como a securitização e o Programa de Saneamento de Ativos (Pesa), já renegociado, outra parcela equivale ao custeio da safra passada e outra, aos custeios também prorrogados.
"No ano passado fizemos um arranjo, mas o cobertor é curto e neste ano vai dar estouro", diz o deputado Luís Carlos Heinze, autor do projeto de criação da subcomissão. Segundo ele, na época da renegociação, ficou acertado com o governo que o tema voltaria à tona este ano.
A assessora técnica da CNA, Rosemeire dos Santos, explica que tem produtor que este ano vai precisar pagar cinco a seis parcelas diferenciadas: o Pesa, a securitização, a parcela do investimento, a do custeio prorrogado o ano passado (20% a 60%), o custeio no banco ou trading e 30% da parcela da safra 2004, renegociada.
Estima-se que apenas em débitos rolados e não pagos - ou seja, atrasados - sejam R$ 7 bilhões. Valor igual foi renegociado no ano passado, referentes às perdas das safras, por questões climáticas e cambiais, desde a temporada 2004/05.
Segundo ela, no ano passado houve vários tipos de renegociação, diferente do que ocorreu em 1996, quando todos tiveram as mesmas condições. A situação foi diferenciada por produtor.
Resolução
"É um ano difícil. O problema não é a safra atual, mas o passivo acumulado", diz Rosemeire. Segundo ela, é uma situação complicada, pois embora o produtor continue pagando juro, ele ainda tem o risco da atividade, das oscilações de preço e juro elevado. "É preciso uma ação mais incisiva, como refinanciar a dívida com juro compatível e acoplado a seguro, de forma que garanta que o débito vai ser pago", afirma Rosemeire.
De acordo com o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Carlos Sperotto, está claro que a safra atual é boa, mas que existe um compromisso é significativo de outras safras que não poderá ser absorvidos com uma safra boa. "Não existe esta lucratividade com o setor, por isso a necessidade de se olhar o processo", afirma. Está confirmada para próxima quarta-feira a apreciação do requerimento que cria a subcomissão especial sobre o endividamento agrícola na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Neila Baldi)