Reforma ministerial deixa o mundo político em suspense
Agora ninguém mais tem dúvida. A esperada reforma ministerial do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva só sai na segunda quinzena de março, depois da escolha do novo presidente do PMDB. O que se sabe é que Lula vai diminuir a participação do PT e aumentar a do PMDB.
O próprio presidente vem dizendo que vai esperar a “rearrumação das forças partidárias”, mas a indefinição acaba atrasando projetos e criando expectativas que não se completam.
Entre os baianos, pelo menos dois parlamentares aguardam ansiosos o anúncio da reforma. Um deles é o deputado Walter Pinheiro, que é um dos indicados do PT para assumir o Ministério do Desenvolvimento Agrário em substituição a Guilherme Cassel. Enquanto espera o possível anúncio, Pinheiro diz que “estou tocando o meu trabalho de parlamentar. Sei que o partido me indicou, mas só vou pensar em ministério se o presidente me escolher”.
Posição parecida com a do peemedebista Geddel Vieira Lima.
“Deixa o homem escolher”, diz ele, que prefere dizer que “não sou candidato a ministro e nem penso no assunto”. Mas Geddel não esconde que anda arredio com a imprensa porque, segundo ele mesmo, “tenho mais medo do ridículo que da morte”. O parlamentar baiano sabe que é um dos indicados pelo PMDB, mas o próprio partido está consciente de que Lula espera definições da legenda, que tem uma disputa interna para resolver quem vai dirigir o partido.
CONFLITOS PEEMEDEBISTAS– Enquanto o grupo liderado pelos senadores Renan Calheiros e José Sarney quer o gaúcho Nelson Jobim chefiando o PMDB, o atual presidente, Michel Temer, quer continuar à frente do partido.
As chances de Geddel são grandes: neolulista, o antigo aliado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), virou parceiro do Palácio do Planalto durante a campanha do ano passado, na aliança construída com o governador Jaques Wagner.
Segundo se comenta o presidente Lula teria mandado uma proposta a Temer, oferecendo-lhe o Ministério da Previdência, para que abrisse caminho para Jobim presidir o PMDB. Temer teria dito ao ministro das Relações Institucionais Tarso Genro, emissário do presidente, que preferia que o convite não fosse feito, para que ele não tenha que dizer não.
EFEITO CASCATA– Se no plano nacional a luta pelas cadeiras de ministros coloca em posição complicada até estrelas da grandeza de uma Marta Suplicy – o PT quer que o presidente dê a ela um ministério e o presidente não tem solução para o caso – no plano estadual também existe um efeito cascata.
Se Walter Pinheiro for confirmado ministro abre-se uma vaga na Câmara Federal, que será ocupada pelo suplente Emiliano José do PT. E no caso de Geddel Vieira Lima vir a ser ministro, a vaga será ocupada por Mão Branca do PV.
Nos demais Estados em que existem candidatos a ministro a expectativa não é menor. E como nem todos os suplentes são do mesmo partido de quem sai, pode ser que – ao final – também no Congresso haja uma rearrumação de cadeiras e forças.AS MUDANÇAS – Quem imaginava que o presidente Lula faria uma reforma ministerial ampla se enganou.
Desde o princípio o presidente vem dando demonstrações de que, se pudesse, deixava o governo como está. Afinal de contas ele não é candidato nas próximas eleições e pode esperar quanto quiser. Só vai fazer a reforma para abrigar os novos aliados da base.
Há quem afirme que Lula não deverá trocar mais que dez posições nos ministérios. Devem mudar apenas Relações Institucionais e Justiça, com a simples ida de Tarso Genro para o lugar de Márcio Thomaz Bastos, abrindo apenas uma vaga.
Sobram Aquicultura e Pesca e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, que pode ter Luiz Eduardo Greenhalgh no lugar de Paulo Vanuchi. Entre os ministérios políticos, Ciência e Tecnologia poderá estar na quota do PSB.
Desenvolvimento Agrário pode tocar para Walter Pinheiro e Indústria e Comércio Exterior só troca porque Luiz Fernando Furlan não aguenta mais ser ministro. Ele saiu de férias três vezes nos últimos dias e acabou voltando ao trabalho trabalho diante da demora do Presidente em anunciar o seu substituto.
Outro ministério disputado, pelas verbas, é o da Integração Nacional, para onde poderá ser indicado o deputado Geddel Vieira Lima.
Devem mudar ainda Previdência Social, Saúde – que pode ser entregue a Ciro Gomes – e Transportes, para onde pode voltar o ex-ministro Alfredo Nascimento.
QUEM FICA – Lula não vai fazer mudanças no núcleo da administração.
Ele vai manter Dilma Rousseff na Casa Civil, assim como a equipe econômica com Guido Mantega, na Fazenda, e Paulo Bernardo, no Planejamento, Orçamento e Gestão. HenriqueMeirelles permanecerá no Banco Central.
O ministro das Cidades, Márcio Fortes, tem a permanência garantida pelo próprio Lula ao presidente do PP e ao líder Mário Negromonte.
Gil permanece na Cultura, na cota pessoal do presidente, assim como Orlando Duarte nos Esportes, na cota do PCdoB. Nas conversações ninguém fala nem da saída de Waldir Pires da Defesa e nem de Jorge Hage da Controladoria Geral da União.
BAHIA – Mesmo com a saída certa de Paulo Sérgio Passos, dos Transportes, a Bahia ainda ficaria com seis integrantes na equipe do primeiro escalão na Esplanada. Uma força de que poucos Estados podem se orgulhar.
Sem pressa, o presidente vai criando expectativas e decepções.
Lula gostaria de ver o ex-ministro Nelson Jobim, do STF, no governo.
Mas também gostaria que Jobim assumisse a presidência do PMDB.
O gaúcho é a aposta do grupo do Senado – leia-se Renan Calheiros e José Sarney – que está aliado a Lula desde o primeiro governo.
Com Jobim na presidência do partido aliado, a convivência poderia virar um mar-de-rosas. Mas, no próprio PMDB, ninguém duvida que, se a eleição fosse hoje, as chances de Temer continuar presidindo o partido seriam de 100 por cento.
Diante deste quadro, resta esperar com a mesma paciência do presidente a definição dos peemedebistas e rezar para que – definido o presidente da legenda – Lula não espere mais nenhum dia para acabar com a expectativa do País e dos partidos, anunciando logo essa reforma que não sai.
UMBERTO DE CAMPOS