Produtores com problemas em manter suas áreas cultivadas

05/03/2007

Produtores com problemas em manter suas áreas cultivadas

Os produtores rurais do Distrito de Irrigação de Maniçoba, a 35 quilômetros de Juazeiro, estão enfrentando problemas para manter as áreas produtivas em suas mãos. Por falta de recursos e financiamento, os produtores estão sendo obrigados a entregar suas áreas cultivadas de manga a terceiros, arrendando a produção por R$ 3 mil por hectare/ano perdendo a oportunidade de lucrar com a produção de 156 pés da fruta o que o arrendatário terá ao fim da safra que pode chegar até a 40 toneladas com rendimento superior a R$ 30 mil.

Para o produtor Antônio Nogueira Filho, 36, que possui um lote comprado de outra pessoa com dívida de R$ 22 mil, as dificuldades oferecidas pelo banco para que ele tenha a oportunidade de quitar o débito que, segundo ele, já deve estar em R$ 250 mil, são muitas. “Eu quero ao menos mostrar a ele que nós temos como pagar nossas dívidas, que nossa área é produtiva, que estamos conseguindo vender nossos produtos, que não faltam clientes”, desabafa o produtor, que está cansado de ir ao Banco do Brasil em busca de solução para seu problema.

“Eu quero pagar meu débito para poder ampliar o cultivo, mas tudo que eles me dizem é que meu caso não se enquadra na lei”, afirma Nogueira. A lei a que ele se refere é de Renegociação de Dívidas nº 11.322 de 13/07/2006 que, segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Juazeiro, Agnaldo Meira, dá margem a interpretações variadas.

Segundo o analista técnico do Banco do Brasil em Juazeiro, Alailson Robério Costa Silva, o banco está sempre disposto a novos empréstimos, a renegociação de dívidas dos produtores, desde que estejam normatizados, seguindo desenvolvimento sustentável, com responsabilidades e toda estrutura necessária. “Cada banco possui um fundo de renegociação diferenciado e isso tem confundido os produtores. Nós seguimos regras estabelecidas”, esclarece Alailson. Ele afirma que muitos produtores, do próprio distrito de irrigação de Maniçoba, já foram beneficiados com novos financiamentos.

 

Plantação precisa ser diversificada

O agricultor Fábio do Espírito Santo é um dos que pensam em investir em oleaginosas, mas sem esquecer dos produtos que garantem a sua subsistência. Ele atualmente se dedica ao cultivo de amendoim em Humildes, distrito de Feira de Santana, e planeja ampliar o número de produtos cultivados em sua propriedade. Não cogita, todavia, abandonar o cultivo de produtos alimentícios como feijão, milho, batata e mandioca.

OTIMISMO – A oportunidade de inclusão no programa do biodiesel, avalia o agricultor, permitirá a expansão dos produtos, o aumento nos lucros e o fazer investimentos sem receio. “É importante este investimento para abastecer as indústrias, mas é preciso a consciência de que outros produtos são fontes de abastecimento do mercado e que não poderemos parar de produzir”, disse, após assistir a uma palestra sobre as perspectivas do biodiesel para a região de Feira de Santana na semana passada.

Fábio do Espírito Santo espera que, com a garantia de que a produção seja aproveitada totalmente, os pequenos agricultores possam investir na compra de mais sementes, terra e até em cultivo de novos produtos.

Oleaginosas têm outros usos e aplicações

Não é só ao programa do biodiesel que as oleaginosas atendem. As duas espécies mais cultivadas na Bahia (confira o infográfico) têm outros usos mais nobres. O óleo de mamona integra a composição dos painéis de automóveis e evita que eles trinquem e fiquem com aspecto de velhos, segundo a professora Cristina M.Quintella, do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia.

O óleo de dendê, por sua vez, é usado na culinária baiana. A produção brasileira do óleo, contudo, ainda não é suficiente e o item precisa ser importado da Malásia, acrescenta o professor José Adolfo Neto, da Universidade Estadual de Santa Cruz. Ele defende que a cultura do dendê é mais competitiva e viável a longo prazo, porque exige menos investimentos. Um pé de dendê chega a produzir por até 30 anos.

O professor Ednildo Torres, da Ufba, apresenta a opção do pinhão-manso, que, comparado com a mamona, tem maior produtividade por hectare. A mamona dá, em média, 500 quilos por hectare, enquanto o pinhão-manso chega a produzir 5 toneladas na mesma área, sem irrigação. Com irrigação, o pinhão-manso pode produzir até 12 toneladas.

Sobre outros derivados da produção do biodiesel, a professora Cristina cita a glicerina. O grupo que ela coordena na Ufba foi premiado pela Petrobras por descobrir que a substância, adquirida na decantação do biodiesel, auxilia na recuperação da qualidade do petróleo retirado de campos maduros. “Quando se usa a glicerina, se consegue retirar o dobro em volume do petróleo”, cita.

Outro produto adquirido na lavoura é a chamada “torta”, um resíduo sólido das usinas de biodiesel que pode servir como esterco nas plantações ou ração para os animais, de acordo com o professor Ednildo Torres, da Escola Politécnica da Ufba.

Ele acrescenta que a aglutinação em cooperativas ou associações confere maior poder de barganha com as fábricas, além de permitir o fornecimento do óleo com um preço melhor caso se opte por esmagar as sementes e frutos nas próprias fazendas. Além disso, agricultores unidos podem achar melhores soluções para o transporte e armazenamento dos estoques.

CRISTINA LAURA