“É a fome de mais 21 dias. A barriga não espera”, afirma a marisqueira Maria Terezinha, mãe de sete filhos, ao explicar porque se alimenta dos mariscos que pesca, mesmo sendo proibido e com risco de contaminação. No início da tarde de ontem, ela e dezenas de pescadores de Santo Amaro e de São Francisco do Conde saíram pelas ruas da primeira cidade para reivindicar mais cestas básicas, botijões de gás e a anistia das contas de água e luz. Quem não teve acesso às 300 cestas enviadas pela Coordenação Estadual de Defesa Civil (Cordec) e disputadas a tapa pela população, acabou consumindo frutos do mar contaminados. Em Salinas da Margarida, o hospital tem atendido, em média, cinco pessoas por dia, vítimas do mal-estar provocado pela contaminação. Em Vila do Acupe, pescadores descumpriram a proibição do Centro de Recursos Ambientais (CRA), ingeriram peixe e passaram mal.
“Eu senti falta de ar, dores no peito e na perna”, afirma a marisqueira Maria Dalva, que teve que recorrer aos mariscos para não ficar com fome. Com um curativo no olho esquerdo, o pescador Juarez da Purificação de Machado teve a visão atingida pela água contaminada do mar. “Está tudo embaçado, sinto meu olho arder”, disse, esclarecendo que passou a não enxergar direito depois de ter mergulhado nas águas da baía para pescar.
De acordo com ele, um médico do Hospital Octávio Pedreira, em Santo Amaro, teria lhe dito que só pode passar o medicamento quando o diagnóstico do CRA for divulgado. ”Ele me disse que não poderia passar um remédio sem saber com que tipo de substância eu tive contato”.
Das 300 cestas já enviadas a Santo Amaro, cem foram distribuídas na manhã de ontem, no distrito de Vila do Acupe. Houve confusão e boa parte das famílias não teve direito ao benefício. Uma delas é a dona de casa Ana Cristina, que afirma ter apenas arroz na dispensa. “Nós estamos vivendo nesse desespero há de três semanas. O que vou dar de comer para meus três filhos?”. Em Saubaura, as duas mil cestas básicas enviadas pelo órgão estadual serão distribuídas hoje.
Sem alternativa - O único que compra os peixes e os mariscos contaminados é o dono da mercearia local, Valdir Borges. “O pessoal vem aqui com os peixes e eu não tenho alternativa.
Tenho que comprar, mas estou tomando prejuízos”. Valdir mostra os freezers do seu estabelecimento tomado por peixes como robalo, camarão branco, mariscos. Não há perspectiva de venda. Sua filha Valdizia, que é professora da escola pública do distrito, afirma que as crianças chegam às aulas tontas de fome. A merenda escolar está em falta. “Estamos tentando agilizar a vinda da merenda, porque, senão, as crianças não vão ter como estudar”.
Mas se eles perguntarem ao presidente da Amapesca, José Roque de Jesus Filho, receberão uma resposta no ato: “É de calamidade social! Estas pessoas estão passando fome”. Além do envio de mais cestas básicas, os pescadores querem a anistia das contas de água, luz e gás. “Nós não temos dinheiro para comprar nada. E não sabemos até quando vamos poder comprar fiado na mercearia”, diz o pescador Jorge Santos Silva, que, durante o protesto, segurava dois peixes mortos por contaminação.
Somente na tarde de ontem, o decreto de situação de emergência da prefeitura de Santo Amaro foi homologado pela Coordenação Estadual de Defesa Civil (Cordec). Técnicos do órgão ligado à Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza do Estado da Bahia (Sedes) deverão chegar hoje ao município para avaliar a situação das famílias de pescadores e marisqueiros. O protesto na localidade foi organizado pela Associação das Marisqueiras e Pescadores de Caieira (Amapesca).
Dos quatro municípios que decretaram emergência, apenas o de São Francisco do Conde não tinha a situação reconhecida oficialmente pelo governo estadual. De acordo com a assessoria da Secretaria de Desenvolvimento Social e de Combate à Pobreza (Sedes), assim que isto ocorrer, técnicos da Cordec irão ao município para definir a ajuda a ser oferecida.
Pedido de socorro - Em Saubara, município cuja costa é a mais atingida pelos prejuízos provocados pela contaminação, as duas mil cestas básicas da Coordenação Estadual de Defesa Civil foram entregues na manhã de ontem. Elas serão distribuídas em três pontos diferentes do município – duas escolas e a sede da prefeitura – para as primeiras famílias de pescadores cadastradas. O coordenador municipal do Meio Ambiente de Saubara, João Carlos dos Reis Silva, confirmou a chegada de duas mil cestas básicas no final da manhã de ontem. Há a expectativa ainda que sejam fornecidos peixes não contaminados para a ceia da Semana Santa das famílias atingidas pelo acidente ambiental. Silva afirmou ainda que passou um fax para as empresas da região solicitando donativos. “Esperamos conseguir cerca de 3,5 mil cestas básicas até a semana santa para entregar aos pescadores”.