Marcha organizada para a capital

13/04/2007

Marcha organizada para a capital

Os cinco mil trabalhadores rurais do Movimento Sem-Terra (MST) que, desde a última segunda-feira, seguem em marcha de Feira de Santana a Salvador acamparam ontem nas proximidades do município de Santo Amaro. Partindo do povoado de Lixa, no distrito de Amélia Rodrigues, homens, mulheres e crianças seguiram por 15 quilômetros com o propósito de chegar à capital baiana no próximo dia 16, véspera da data em que relembram o massacre de Eldorado dos Carajás – quando 19 integrantes foram assassinados –, que está completando 11 anos.

Inspirados pela luta, a rotina dos militantes começa cedo. Por volta das 7 horas, já é possível encontrálos na estrada, ocupando metade da via. Os agricultores estão sempre em duas filas indianas, com o vermelho predominando nas roupas, bonés e bandeiras.

Das nove regiões do Estado – do extremo sul ao nordeste – até a cidade de Feira de Santana, o trajeto foi realizado de ônibus, carro e caminhão.
Mas, no restante da jornada, segue-se a pé. Alguns param para descansar por alguns minutos, sentados no acostamento, e quem demora corre o risco de ficar para trás, porque o ritmo é forte.
“Vão matar o velho desse jeito”, grita um sem-terra, 69, ainda jovem por força da vida de lavrador.
A estrada colabora com os camponeses, concedendo alguns presentes, como a goiabeira, que um grupo de rapazes tratou de “chegar junto” e se regalar. A cana-de-açúcar também fez parte do lanche na rodovia. Desse modo, os sem-terra tiram o que precisam para repor as energias, sem esquecer de dividir com os companheiros. A marcha é ainda acompanhada de carro de som, onde se entoam palavras de ordem, relembram-se os motivos da jornada, mas também abre-se espaço para música e animação.

Canções de reggae, sertanejo e forró fazem a festa de quem há dias anda pela causa. Firme no passo, segue Miralva de Carvalho, 49 anos, 5 filhos, há 10 anos no movimento. Atualmente, ela vive no assentamento de Canguçu, no sudoeste baiano, onde considera que está vivendo um dos melhores momentos da sua vida.

“Fui doméstica por 11 anos. Era massacrada e não tinha nada. Hoje, tenho terra, uma casinha e essa família imensa”, afirma, referindose aos membros do MST.

ESTUDO – Hoje, a grande satisfação da sem-terra é saber que os filhos têm a oportunidade de estudar. “Só entrei na escola depois que me juntei ao movimento. Antes, não sabia ler, nem escrever. Agora os meus filhos, os ‘sem-terrinha’, também estudam”, conta. Apesar das conquistas, a lavradora, que já participou de marchas quando estava grávida de seis meses, resume o desejo coletivo de desenvolvimento do meio rural. “Luto pelos colegas que não têm uma roça como eu tenho e pelo crédito rural”.

Assim como outras participantes da marcha, ela não dispensa acessórios que revelam a típica vaidade feminina. Caminha de saia e bolsa coloridas e blusa cor-de-rosa, assim com o esmalte que chama atenção para as unhas. É casada, mas nem o marido, nem os filhos puderam acompanhá-la.

“Alguém tem sempre que ficar em casa”, justifica. No acampamento, onde são armadas grandes tendas coletivas, todos afirmam que o clima é de muito respeito. “Homens dormem de um lado, mulheres de outro”, garante Elisângela Ferreira, uma sem-teto de 22 anos.

A logística e organização empregada na marcha do Movimento Sem-Terra surpreende os desavisados. Cada comunidade forma grupos para realização de tarefas básicas, como montagem de barracas, cozinhar ou cuidar das crianças durante as caminhadas.

“Os pequenos não seguem com os familiares. Temos o pessoal da ‘ciranda infantil’, onde as crianças têm recreação e atividades lúdicas. Depois do almoço, eles voltam a se juntar à família”, explica Lúcia Barbosa, integrante da direção nacional do MST.

Vivência do sentido de comunidade

Nos acampamentos, são improvisados espaços para banho – tendas de lona nas laterais servem para proteger as moças dos olhares alheios. Na hora do almoço, os caminhões trazem a comida simples do homem do campo – feijão, arroz, carne e verduras – e fazem a festa dos milhares que esperam ansiosos. Canecas, pratos, vasilhas de margarina, tudo serve para guardar o alimento.

Existe até mesmo um posto de saúde, caso alguém se machuque no trajeto. “O atendimento é realizado por estudantes do curso de enfermagem, que o MST promove no município de Vitória da Conquista”, conta a integrante Lúcia Barbosa.

INTEGRANTES – Além de conquistar simpatizantes da causa, o MST possui hoje um tipo muito especial de integrante: são jovens que nasceram e cresceram dentro do movimento, como Redevâio Alves, 16 anos. “Nasci numa ocupação e cresci em um assentamento. Meus pais são lideranças dentro da comunidade”, diz. Apesar do discurso político ser uma realidade dentro de casa, o rapaz mostra desejos nada excepcionais para um garoto da sua idade. “Quero ser motorista de caminhão quando estiver mais velho, para ver lugares novos nesse mundo”, diz.

Cursando atualmente a 6ª série, numa escola construída dentro do assentamento, o rapaz sai eventualmente para passear com amigos no município vizinho ou para Belo Horizonte (MG), para participar de reuniões do movimento. “Tenho uma vida normal. O único problema é a discriminação. Tem gente que xinga e aponta a gente na rua”, lamenta o garoto. “Quero ser motorista de caminhão” Redevanio Alves, 16, cresceu dentro do MST

FERNANDA SANTA ROSA