Perspectiva de nova fonte econômica no sudoeste

23/04/2007

Perspectiva de nova fonte econômica no sudoeste

Nos últimos 12 meses, pelo menos 10% de pastagens de capim elefante plantadas nas zonas rurais de 15 municípios na região sudoeste do Estado já cederam lugar para a canade-açúcar, utilizada na produção de álcool, aguardente e, em épocas de estiagem, como suplemento na alimentação do gado Por conta disso, conforme levantamento de sindicatos rurais da região, a pecuária de corte e leite, principal atividade econômica em Itapetinga e outros 11 municípios da região, corre risco de passar para segundo plano. Cerca de 24 variedades industriais de canade-açúcar são cultivadas.


As plantações fazem parte dos trabalhos técnicos da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), nas estações experimentais de Barra do Choça e Itambé, em parceria com a Embrapa Gado de Leite e a Petrobras, para produção de forragem.
De acordo com o pesquisador da EBDA, Gilson Caroso, a canade-açúcar é a forrageira com maior capacidade de produção de energia por unidade de área cultivada (A TARDE Rural de 9/4/2007). Esta característica tem levado produtores da região a uma corrida para a formação de canaviais para uso na alimentação animal e produção de cachaça e rapadura.

Esta repentina atenção pela canade-açúcar na região direcionou o olhar de empresários da industrialização da cana para Itapetinga, a 562 km de Salvador, onde a movimentação tem sido grande, observa pesquisadores da EBDA. “Temos sido procurados por empresários da região, que querem dados de pesquisas para subsidiar a formação de parcerias na área alcooleira”, disse Gilson Caroso, mostrando-se impressionado com a busca de áreas para implantação de usinas. “Isso é bom, pois a Bahia vem atrás de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul”, comentou o pesquisador.

Ele afirma ser viável a produção de álcool no sudoeste baiano. Em meados do ano passado, Itapetinga (que já foi conhecida como a capital da pecuária baiana) tem sido o destino de técnicos e empresários japoneses e franceses, interessados em implantar uma usina de álcool e açúcar. A pretensão não tem data para ser concretizada, mas uma coisa é certa: o elevado preço das terras não é obstáculo.

ASSOCIADOS – Encravado em um dos solos mais férteis e caros do País, onde um alqueire de terra (área equivalente a 20 hectares ou 20 campos de futebol) pode chegar até a R$ 120 mil, o município já festeja a anunciada uma injeção de US$ 140 milhões.
Deste total, segundo representantes dos empresários e da Prefeitura de Itapetinga, US$ 60 milhões serão aplicados na implantação de uma usina de açúcar e US$ 80 milhões com uma usin de álcool. A pretensão é a de gerar cerca de 4 mil empregos diretos no auge da colheita, com a previsão de produção inicial de 2 milhões de toneladas de cana por ano em uma área com cerca de 25 mil hectares.

Até o momento, mais de 15 mil hectares de terra já foram apresentados pelos pecuaristas que têm interesse em parcerias. As áreas identificadas inicialmente como viáveis para o plantio da cana envolvem propriedades nos municípios de Itapetinga, Itambé, Macarani, Maiquinique e Caatiba. Os japoneses chegam em sociedade com os franceses, que trabalham com produção de açúcar há mais de 120 anos no País. “Se o projeto for viabilizado em Itapetinga, a cidade e toda a região darão um salto no seu desenvolvimento, pois em torno de uma usina de álcool circulam algumas outras indústrias e 30% do faturamento de uma usina é gasto com adubos e defensivos”, acredita o prefeito Michel Hagge (PMDB).


O pecuarista Djalma Santos é um dos mais entusiasmados com o projeto. “A produção da canade-açúcar, se comparada com a de outras lavouras ou outras atividades de produção, a exemplo da pecuária, dá mais lucro”, diz o pecuarista, ressaltando que, no Sul do País, “o produtor recebe cerca de R$ 7 mil por um hectare de canade-açúcar plantado”. Em um alqueire, o produtor recebe cerca de R$ 140 mil por ano, bem superior ao que um pecuarista consegue ganhar em rendimento na pecuária. “A cana-de-açúcar convive, harmoniosamente, digamos assim, com a pecuária", destacou Djalma Santos. Os especialistas dizem que, para manter produção de dois milhões de toneladas por mês, a usina deve estar em uma área de 28 mil hectares. A partir de Itapetinga, e por um raio de 30 km, há mais de 280 mil hectares próprios ao cultivo da cana-de-açúcar.     

Cooperativas vendem à Conab

O Há anos, na região sudoeste, a cana-de-açúcar é usada no fabrico de cachaça, rapadura, açúcar mascavo e melado, como ocorre no alambique de João Moura, no município de Piripá, onde ele produz cachaça artesanal.

O secretário municipal de Agricultura de município, Nivaldo Oliveira Castro, cobra, porém, mais incentivos para aumento da produtividade. “Isso só se alcança mudando o sistema de plantio.

Atualmente, temos 300 hectares de cana-de-açúcar, com uma produtividade de 35 a 40 toneladas por hectare, embora o ideal seja 80 toneladas”.

Para encaminhar reclamações desse tipo aos canais responsáveis pelo atendimento, foi debatida, na semana passada, em Condeúba, a criação de um comitê gestor, com representantes da EBDA, agentes financeiros, governo do Estado e Sebrae.

Organizados em cooperativas, que formam o conjunto de unidades do Pró-Gavião, os cooperados comemoram a assinatura do primeiro contrato de comercialização com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Juntas, Coodecana, Coodeleite, Coopmel e Cooperman totalizaram R$ 406 mil em vendas na modalidade de doação simultânea.

Entidades como pastorais, igrejas, hospitais, creches, escolas, instituições culturais e assistenciais são cadastradas pelas cooperativas para receber doações periódicas de produtos. Todo o material é distribuído à população carente e a seus usuários.

“Este contrato chegou na hora certa, exatamente no momento em que as cooperativas foram legalizadas”, destacou o diretor-presidente da Coodecana, Jurandi Costa Viana. Para ele, o suporte do Sebrae foi fundamental para que se chegasse a tal momento. O gestor local do Projeto de Derivados de Cana-de-açúcar, Israel Tavares Viana, lista a presença do Sebrae em toda a região, com consultorias e cursos de capacitação tecnológica e workshop em 2006.

Os cooperados já vislumbram outros negócios, como a celebração de novos contratos com o governo federal, novas parcerias e maior aproximação com a iniciativa privada. A Coodecana comercializou 47.651 quilos de produtos diversos, num total de R$ 130 mil.

A Coodeleite obteve R$ 91 mil, mesmo exemplo foi seguido pela Cooperman, com negociação de R$ 140 mil e a Coopmel, que recebeu R$ 35 mil. As cooperativas foram criadas em 2005 e cada uma é composta por uma diretoria formada de presidente, vice-presidente, secretários, diretor-financeiro e conselho fiscal.

JUSCELINO SOUZA