Embrapa e chineses cobiçam a África
Em fase de recuperação de sua capacidade de investimentos no Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) decidiu elevar as apostas na África para alavancar seus negócios internacionais. E o primeiro passo da estratégia no continente será associado a investimentos anunciados pela China na ampliação da infra-estrutura de alguns países africanos.
A tática da estatal, que comemora hoje 34 anos de fundação, é seguir o rastro dos chineses, que prometeram investir US$ 5 bilhões ao longo dos próximos cinco anos na região, para garantir uma ampla fatia no mercado de capacitação e treinamento de pessoal, assistência técnica, serviços de consultoria, pesquisas associadas e transferência de tecnologias específica para a agricultura tropical dos países da África Subsaariana.
Os executivos da estatal apostam que a aproximação e os investimentos da China resultarão numa forte ampliação do consumo de alimentos no mercado interno na África. Assim, será possível levar à reboque os mais diversos produtos da indústria brasileira, desde máquinas e equipamentos agrícolas, sementes, sistemas de produção (lavoura-pecuária e agro-silvopastoris) até commodities (soja, milho, arroz, algodão) e carnes.
Para começar, a Embrapa centrará seus esforços em oito países que serão prioridade dos chineses. "A China está indo para a África atrás da mineração, do cobre, do ferro, do manganês, além do petróleo e do gás. E nós vamos no vácuo deles para colocar, pela primeira vez, o pé fora do Brasil de maneira institucional", diz o presidente da estatal, Silvio Crestana. Na lista, estão África do Sul, Namíbia, Zâmbia, Moçambique, Camarões, Libéria, Sudão e Seychelles. Mas também há boas perspectivas de negócios no Egito, Gana, República do Congo, Angola, Tanzânia, Uganda, Nigéria e Quênia.
A preparação para o "bote" da Embrapa já havia começado em 2006, com a implantação de uma unidade de pesquisa da estatal em Acra, a capital de Gana. Uma equipe de pesquisadores realiza, desde dezembro do ano passado, as prospecções do vasto mercado local. "A tecnologia da Embrapa, líder mundial na agricultura tropical, cobre todos os ecossistemas da África. Não apenas com tecnologias de produção, mas também de manejo, cultivares específicas, zoneamento e genética animal, por exemplo", afirma Crestana.
Mesmo com pouco mais de quatro meses de trabalho na África, a demanda tem sido "enorme", informa Crestana. "Há demandas de todo tipo, via BID, FAO ou diretamente com os países". Ele conta que um grupo português busca parceria para implantar 100 mil hectares de soja e instalar uma usina de biodiesel voltada à exportação para o mercado da Europa. A maior cooperativa do mundo, a All China Federation, que reúne 160 milhões de cooperados, cobiça a tecnologia da Embrapa. A Academia Chinesa de Ciência também assedia pesquisadores brasileiros.
E a aposta da Embrapa começa a incomodar alguns concorrentes. Em recente visita ao Brasil, o conselheiro científico do governo britânico, David King, questionou Crestana sobre os planos da Embrapa no continente, composto por nações que foram colônia do Reino Unido. Gana, por exemplo, é ex-colônia britânica. Embora aumente a aposta na transferência de tecnologia, a Embrapa ampliará as parcerias em pesquisas por meio dos laboratórios no exterior (Labex). "Não vamos abandonar os Labex. Pelo contrário, vamos ampliá-los", diz Crestana. Segundo ele, será criado mais um Labex na Europa, na Holanda. Hoje, há uma Labex na França e outro nos Estados Unidos. "Mas vamos crescer e chegar à Alemanha, Reino Unido, Espanha e Portugal", prevê o executivo.
MAURO ZANATTA