Nova retração dos grãos em abril
As cotações médias dos contratos futuros de segunda posição de entrega - normalmente os que apresentam maior liquidez - de soja e milho voltaram a cair na bolsa de Chicago em abril, segundo cálculos do Valor Data.
Ambos já haviam caído em março, o que não acontecia simultaneamente desde setembro, quando projeções do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) começaram a apontar o risco de escassez de milho no mercado americano este ano. Essa possibilidade ganhou força com as previsões de maior demanda para a produção de etanol, mas agora, com as estimativas de área plantada recorde nos EUA nesta safra 2007/08, parte do suporte derreteu. Graças sobretudo à ação de fundos de investimentos, a soja vem seguindo a reboque do milho desde setembro.
Em abril, segundo o Valor Data, a cotação média dos contratos de segunda posição do milho atingiu US$ 3,7309 por bushel, 9,65% abaixo da média de março. Neste ano, com isso, a commodity passou a acumular queda de 1,89%, mas nos últimos doze meses ainda há alta de 50,26%. "O principal motivo para a baixa de abril foi o relatório do USDA que apontou um aumento de área plantada nos Estados Unidos maior que a prevista. Mas os fundos também aproveitaram o relatório para realizar lucros", diz Leonardo Sologuren, da Céleres.
Segundo ele, o clima nos EUA já influencia diretamente as oscilações de preços - "antes da fase de desenvolvimento das lavouras, como acontece normalmente" - e o mercado deverá continuar nervoso nos próximos meses.
Ainda contaminada pelo milho, a soja fechou abril com preço médio de US$ 7,5271 por bushel, 2,11% menos que em março. Para o grão, 2007 ainda aparece com valorização de 11,17%, e nos últimos doze meses a alta chega a 29,18%. "Foi o primeiro mês, desde outubro de 2006, em que as cotações convergiram aos fundamentos desse mercado. Mas a influência do milho ainda existe", diz Renato Sayeg, da Tetras Corretora.
Ele lembra que foram seis meses de desafio à lógica, uma vez que a relação entre estoques e consumo globais era confortável, e que os analistas aguardam nova previsão do USDA para esta proporção, que sairá em junho.
Também negociado em Chicago, o trigo foi guiado pelo clima nos EUA no mês passado. A cotação média encerrou abril a US$ 4,8475 o bushel, com alta de 2,55% sobre março. "O frio e o excesso de chuva afetaram a qualidade do trigo de inverno. E as chuvas começam a prejudicar o plantio da safra de primavera", diz Élcio Bento, da Safras&Mercado. A seca também afeta tradicionais produtores, como a Austrália e países europeus.
Em Nova York, abril também foi de quedas. Além do suco de laranja (ver matéria ao lado), recuaram as cotações médias de açúcar, café e algodão. Só o cacau subiu.
No caso do açúcar, os futuros encerraram o mês a 9,59 centavos de dólar por libra-peso, baixa de 7,02% sobre março e de 45,06% nos últimos doze meses. A pressão continuou vindo das ofertas recordes dos dois principais produtores mundiais - Brasil e Índia. "O Brasil sempre colabora com o fator baixista no mercado internacional. E a recuperação da safra da Índia ajudou a reforçar o peso negativo", afirma Júlio Maria Martins Borges, da Job Economia e Planejamento.
Segundo ele, as cotações devem se manter entre 9 e 10 centavos de dólar. "Os altos preços do petróleo e do álcool no mercado internacional evitarão uma queda maior dos preços do açúcar".
No mercado de café, a ausência de notícias no mercado físico tirou parte do suporte das cotações. Com isso, em média os futuros ficaram em 111,09 centavos de dólar por libra-peso, 1,70% menos que no mês anterior. De acordo com Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, os fundos também foram vendedores. "O mercado não reagiu ao número da safra brasileira divulgada pela Conab [32 milhões de sacas]"
Já o algodão encerrou abril com cotação média de 52,34 centavos de dólar por libra-peso, queda de 3,78% no mês. Aqui, foi a baixa demanda no mercado internacional que pressionou as cotações, segundo Fernando Martins, da Fimat Futures.
E o cacau, finalmente, viveu a influência do clima na África. "Mas o cenário ainda não está claro em relação à safra", disse Thomas Hartmann, da TH Consultoria. No mês passado, a cotação média da amêndoa alcançou US$ 1.895 por tonelada, 2,64% acima de março.
FERNANDO LOPES E MÔNICA SCARAMUZZO