Os dois lados do boom do etanol

02/05/2007

Os dois lados do boom do etanol



Prestes a ser transformada em commodity internacional, o etanol brasileiro virou a alternativa energética do século XXI. Ao mesmo tempo em que substitui o petróleo, é também menos poluente.

Essas qualidades intrínsecas do produto estão promovendo uma verdadeira revolução no campo.

Os usineiros estão eufóricos com a exuberância econômica que está por vir, como resultado de investimentos externos esperados nos próximos dez anos de até US$ 100 bilhões. Só que, longe dos holofotes, a indústria de canade-açúcar continua reproduzindo um modelo de relação trabalhista do século XVII.

Os cortadores de cana vivem à margem da lei e trabalham no limite da exaustão (já morreram 18 trabalhadores em São Paulo, com suspeita de exaustão), enquanto os usineiros mantêm a prática antiga de se fecharem em oligarquias pós-modernas, mantendo a concentração de renda na mão de poucos.

A desigualdade social está refletida no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios produtores de cana. Morro Agudo, em São Paulo, o maior produtor nacional, é a melhor tradução do modelo de concentração neocolonialista reproduzido até hoje nas usinas do País, segundo o economista José Roberto Novaes, da UFRJ. A cidade contribuiu com 7,8 milhões de toneladas na última safra, que chegou a 422,9 milhões de toneladas, e há previsão de alta de 13% na safra.

Apesar disso, os 10% mais ricos do município ganhavam, em 1991, 14,38 vezes mais que os 40% mais pobres. Essa diferença só aumentou nos últimos dez anos, apesar do avanço da safra na região. Em 2000, essa diferença pulou para # US$ 570 milhões é quanto o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) pretende disponibilizar para financiar projetos na área de etanol no Brasil nos próximos. Já o BNDES irá desembolsar R$ 7 bilhões para investimentos já aprovados.


Fonte Agência Globo 16,83. O mesmo ocorreu com o coeficiente de Gini, outra medida de desigualdade, que passou de 0,52 para 0,55, no mesmo período.

Um Gini mais próximo de um indica uma concentração de renda maior. “Não é à toa que a cana é identificada até hoje como uma cultura causadora de miséria”, analisa Sergei Soares, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Em Campos, no Rio, o segundo maior produtor de cana do País, onde estão cerca de oito mil cortadores, a concentração também é uma marca: os 10% mais ricos ganham cerca de 20 vezes mais que os 40% mais pobres.

E todo o investimento que está inundando o setor intensifica a exploração de mais de um milhão de cortadores de cana, principalmente para onde está avançando a fronteira agrícola: a Região CentroOeste, que já responde por 10,2% do plantio. Com a expectativa da abertura de mais 80 usinas, os procuradores e fiscais do Trabalho voltaram a ter que combater a exploração da mão-de-obra indígena na região. Só no Mato Grosso do Sul, são cerca de 12 mil índios na plantação e no corte da cana.

Depois de mais de uma década de fiscalizações, enquadrando os usineiros por causa do trabalho dos indígenas, as novas usinas voltam à velha prática de degradação.

No fim de março, no Estado, na região de Naviraí, foram encontrados 170 índios em situação degradante de trabalho, dentre 409 trabalhadores que recebiam tratamento semelhante.

Sem equipamento de proteção individual ou água potável, dormiam num alojamento com capacidade para, no máximo, 80 pessoas.

“Como o espaço era insuficiente, os indígenas dormiam no refeitório, ao relento, em colchões jogados no chão”, conta o procurador do Trabalho Jonas Moreno.