O impacto de cada um na natureza

03/05/2007

O impacto de cada um na natureza

Previsões alarmistas sobre o futuro dos recursos naturais da Terra e o impacto da sua escassez na vida dos seres humanos têm sido divulgadas com freqüência cada vez maior, sem que sejam dadas a estes seres humanos todas as pistas que permitam entender o grau de responsabilidade deles no processo.


A culpa é dos outros. É da indústria que despeja seus dejetos nos rios, poluindo-lhes as nascentes, do crescimento desordenado das grandes cidades, da exorbitante emissão de gás carbônico na atmosfera provocada pelos veículos, e nunca de cada pessoa individualmente. Minha, então? Jamais. O conflito se instala a partir do momento em que a vida humana depende da exploração dos recursos naturais, ao mesmo tempo em que eles devem ser preservador para garantir a sobrevivência das próximas gerações. Mas há vários indícios de que não estão sendo tomados os cuidados necessários.


Como os padrões de consumo e a produção nunca são profundamente discutidos, a educação ambiental, embora sempre bemintencionada, acaba muitas vezes restrita à mera transmissão de informações sem que sejam geradas mudanças efetivas no comportamento das pessoas. Elas aprendem mas quase nunca usam. Conceitos como o de tecnologia limpa parecem excessivamente abstratos, e esta beleceu-se, no senso comum, que a poluição é a preocupação exclusiva da indústria. Mas é preciso lembrar que o mau uso dos recursos energéticos e ambientais não está restrito a este ramo de atividade. Tecnologia limpa, por exemplo, é um conceito que pode ser aplicado também a médias e pequenas empresas, além dos próprios indivíduos.


O coordenador da Rede de Tecnologias Limpas e Minimização de Resíduos (Teclim), vinculada à Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBa), Asher Kiperstok, sinaliza para o fato de que existem passos que podem ser tomados por qualquer pessoa, como a avaliação do impacto que causam individualmente ao meio ambiente. Obviamente, quando são adotadas mudanças tecnológicas, a redução dos danos ao meio ambiente é maior, mas ela pode se dar também pelo simples ato de se prestar atenção no que se está fazendo. "As pessoas têm nas suas casas indicadores como o consumo de água, e podem se preocupar com o que pode fazer para consumir abaixo da média. Para a Embasa, um integrante de família de classe alta tem gasto médio de 400 litros de água por dia, mas um consumo de mais de 100 litros diários por pessoa já pode ser considerado desperdício.
Outro indicador é o consumo de combustível. É preciso se perguntar: quanto eu gasto? Quanto o colega gasta? Sabemos que, quanto maior o nível social maior o impacto", afirma o professor.


Ele lembra que o fenômeno recente da maré vermelha, que provocou a morte de milhares de toneladas de peixes no Recôncavo baiano, causou apreensão na população, que esperava que fosse divulgado um responsá vel: "A atitude da própria comunidade, o esgotamento sanitário inadequado, o descaso dos agendes públicos ao longo da história, a existência de uma área industrial onde não deveria, tudo isso contribuiu. A culpa não é de um único responsável. Há um desequilíbrio no modo de viver". Para o professor Asher Kiperstok, ainda não existem produtos econômico e socialmente sustenstáveis, não se conseguiu atingir um nível em que seja possível atender às necessidades da população com uso racional dos recursos naturais. Não se trata de ter mais produtos à disposição, mas de produtos e processos organizados com maior coeficiência, gerando aumento na qualidade de vida dos indivíduos e padrões de consumo mais criteriosos.


No caso do fornecimento de água, um consumidor de pequeno porte paga uma tarifa mínima por 10 metros cúbicos de água consumida, mesmo que use somente dois. Na opinião do pesquisador, "é necessário encontrar mecanismos para que haja raciona lização desde os grandes consumidores até o consumo básico. As tarifas poderiam ter um papel educativo, por exemplo, se fossem aumentadas drasticamente para grandes consumos".