Eficiência, avanço e concentração, os legados do etanol
O agronegócio brasileiro está de volta ao trilho do crescimento. Puxado por uma locomotiva agora movida a álcool e com perspectivas de aumento da demanda global para a produção de energia e alimentos, o setor tem pela frente, segundo especialistas ouvidos pelo Valor, uma oportunidade valiosa de romper de vez com um passado marcado por administrações familiares e pouco transparentes, crises financeiras e rolagem de dívidas, e consolidar um processo de fortalecimento que ganhou fôlego principalmente após o fim da paridade entre real e dólar, em 1999.
Em um ambiente onde gestão e investidores (nacionais e estrangeiros) profissionais buscam conferir uma nova dinâmica, colaboram para alavancar as vantagens do país e transformá-lo no grande fornecedor de produtos agropecuários do mundo neste século o potencial de expansão da produção, a produtividade das principais cadeias e preços atraentes em mercados internacionais com forte presença brasileira - como suco de laranja, soja, etanol e carnes.
"É uma nova era para o agronegócio brasileiro", diz Marcos Fava Neves, coordenador do Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial da Universidade de São Paulo (Pensa/USP). Em sua visão, a atual valorização das terras em diversas regiões do Brasil em decorrência da expansão dos canaviais exige o melhor uso possível desse ativo, com uma quase obrigatória elevação de investimentos em tecnologia e tratos culturais. E, para ele, este não é apenas o caminho para a área sucroalcooleira, mas também para pecuária, laranja, grãos e outras culturas que terão que se modernizar se quiserem resistir à "febre" do etanol.
No país, há cerca de 90 novas usinas sucroalcooleiras em fase de instalação e quase 200 em estudos - destas, metade com participação de investidores estrangeiros -, conforme a Dedini Indústrias de Base, que fornece equipamentos para quase todos os projetos. Nas contas da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), apenas as usinas que estão sendo instaladas e entrarão em operação até 2009 reúnem aportes de US$ 17 bilhões.
Com isso, observa Guilherme Dias, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA/USP), mais 1 milhão de hectares de canaviais estão prestes a se unir aos mais de 6 milhões em produção no país e mesmo as mais ambiciosas previsões quanto ao futuro da demanda por etanol não parecem assustá-lo. Segundo a Unica, na safra 2006/07 foram produzidos no Brasil 17,7 bilhões de litros de álcool. Do total, 14 bilhões foram consumidos internamente e 3,7 bilhões foram exportados, sobretudo para os EUA.
Fabio Silveira, da RC Consultores, projeta que a demanda doméstica, movida pelos carros flex fuel, poderá atingir 28 bilhões de litros em 2015, e que até lá o Brasil contará com um excedente exportável de pelo menos 5 bilhões de litros. Muitos crêem que o excedente poderá ser maior, mas para este volume a demanda é incerta, apesar do compromisso do presidente George Bush de reduzir em 20% o uso de gasolina nos EUA até 2017, que deflagrou aportes bilionários também naquele país. Se cumprida a meta, serão necessários 132,2 bilhões de litros de combustíveis alternativos adicionais, a maior parte de etanol.
"Essa previsão não é factível. É quase tão boçal quanto a invasão do Iraque, por suas implicações até mesmo na oferta de alimentos. Mas apenas o mercado interno é capaz de sustentar o avanço do segmento sucroalcooleiro por cinco ou sete anos. Não teremos 1 milhão de hectares novos por ano, mas o suficiente para dobrar a oferta de álcool", diz Guilherme Dias. Segundo ele, esse "colchão" doméstico dará suporte enquanto a demanda externa por etanol ganha musculatura. Mas, para que isso aconteça, é vital a participação de outros fornecedores, como Índia, Austrália e Caribe, para conferir segurança de oferta a potenciais importadores, como o Japão.
José Eli da Veiga, professor titular e coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental do departamento de Economia da FEA, pondera que outras soluções para substituir fontes energéticas como petróleo, gás e carvão (hidrogênio, por exemplo) estão sendo pesquisadas, mas que a "janela de oportunidade" que se abriu para o Brasil deverá durar de 20 a 30 anos. Alexandre Mendonça de Barros, do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV) concorda que o horizonte de longo prazo é "fantástico" para o álcool, mas diz que há obstáculos para o próximo biênio.
"Com o dólar por volta de R$ 2, para produzir açúcar, cujas cotações internacionais estão em baixa, as usinas estão no limite. Existe a possibilidade de sobrar álcool no curto prazo". No momento, afirma, a oferta doméstica cresce mais rapidamente que a demanda e é importante que o Brasil encontre opções de escoamento. Mendonça de Barros lembra que há negociações para que os EUA abram uma cota de importação de 3 bilhões de litros de etanol para o Brasil. "Isso resolveria, já que a tarifa americana que onera a exportação brasileira [US$ 0,54 por galão] não cairá antes de 2009.
Independentemente de eventuais obstáculos no curto prazo, é quase consenso que a cana, puxada pelo álcool, tem todas as condições de se tornar a cultura com maior renda agrícola ("da porteira para dentro") do país nos próximos anos. Em 2007, segundo o Ministério da Agricultura, a renda dos canaviais deverá atingir R$ 21,528 bilhões, ou 18,9% do total esperado para os 20 principais produtos agrícolas brasileiros.
Isso não significará, segundo os especialistas, uma "monoculturização". Pelo contrário. Carro-chefe do campo há décadas, a soja tem receita agrícola prevista em R$ 26,453 bilhões (23,2% do total) neste ano, e com as perspectivas abertas pelo maior plantio de milho nos EUA para a produção de combustível a tendência também é de avanço.