Produtores do Vale apreensivos

25/05/2007

Produtores do Vale apreensivos

A queda do dólar deixou os produtores do Vale do São Francisco em clima de expectativa e apreensão. Existe, segundo os exportadores, uma frustração diante da instabilidade da moeda americana. Para Marcus Yuri, vice-presidente da Valexport, empresa que coordena o setor de exportações no Vale, a apreensão dos exportadores reside no fato de que o dólar ainda pode cair mais e toda a animação dos produtores até o momento vai desabar junto.

“Depois de tudo que passamos, enfrentando uma crise que durou mais de três anos, oscilação de dólar, prejuízos causados por chuva, dificuldade de renegociação de dívidas, encarar essa queda agora não é um momento bom”, afirma. Ele explica que esse ano foi diferente dos anteriores, pois “não tivemos inverno rigoroso, os preços ficaram em escalas razoáveis, mas para o segundo semestre, com essa retração está todo mundo muito ansioso”.

Marcus Yuri diz ainda que essa situação vai ocasionar redução do faturamento das empresas dificultando a atividade. “Apesar da melhora que tivemos, desse período de tentativa de recuperação, com passivo engordurado seria preciso pelo menos três anos para voltarmos à normalidade”, assegura.

Para o economista Vitor de Athayde Couto, professor de economia agrária da UFBA, este é o momento para o governo investir na reorientação da política agrícola para a diversificação. “Existem vários capitais com interesses na especialização da monocultura.

Um exemplo é a indústria de máquinas e outros insumos agrícolas. Outro setor é o das marcas estrangeiras que compram nossos grãos, fazem beneficiamento e vendem muito mais caro no exterior”, comenta.

O presidente da Federação da Agricultura da Bahia, João Martins, diz que a orientação aos produtores é o aumento da produtividade e da eficiência, para que o preço dos produtos seja menor. “Essa queda do dólar terá impactos em nosso setor por pelo menos dois anos”, diz.

Ele não acredita na diversificação como caminho para enfrentar a crise. “Temos política de diversificação na cacauicultura, mas não podemos fazer isso com o café, por exemplo. As culturas da soja e do algodão não sofrerão agora porque os negócios já foram feitos, mas a pecuária e o café já estão sendo atingidos”, diz .

Ruralistas cobram medidas compensatórias

A exemplo do que o governo anunciou para empresas exportadoras, o setor rural vai cobrar medidas compensatórias para a queda do dólar. O principal argumento é de que os agricultores compraram os insumos para plantar a safra com o dólar valendo R$ 2,30 e agora, no momento da comercialização, a moeda americana já está abaixo de R$ 1,95. "O problema não é o dólar a R$ 3 ou a R$ 1. O problema são as oscilações do câmbio entre o momento de plantio e de venda, que são muito grandes há três anos consecutivos e estão reduzindo cada vez mais a renda dos agricultores”, afirma Rui Prado, presidente da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja).

Juntamente com a proposta de compensação cambial, o setor agrícola vai entregar para o governo um pedido de compensação para o óleo diesel, um dos principais insumos do agronegócio. A idéia é que o haja uma equalização nos valores do combustível, de tal forma que o preço do litoral seja o mesmo praticado para toda a agricultura, especialmente na região Centro-Oeste.

A proposta de uma compensação cambial para os produtos agrícolas é defendida também por alguns economistas e consultores. Para Fábio Silveira, da RC Consultores, seria interessante esse apoio do governo, sob pena de o Brasil passar a exportar, num futuro não muito distante, apenas os produtos mais rentáveis.

“Exportaríamos meia dúzia de produtos e quando tivéssemos um problema em algum deles nossa balança seria diretamente prejudicada”, afirma.

CRISTINA LAURA