Efeitos das mudanças climáticas no planeta

05/06/2007

Efeitos das mudanças climáticas no planeta

A sensação de que, a cada ano, o verão está mais quente deixou de ser mera especulação sobre o tempo, motivo para puxar conversa ou mais uma reclamação dos pessimistas, que vêem tudo piorar. É também a constatação dos 2.500 cientistas de várias partes do mundo que se dedicam a estudar os efeitos das atividades humanas sobre o clima do planeta. Eles fazem parte do IPCC, sigla do painel intergovernamental sobre as mudanças climáticas criado pelas Nações Unidas e que, em 1990, divulgou o seu primeiro relatório.

O alerta dos pesquisadores sobre a relação entre o aumento da temperatura global e as emissões de gases provenientes da queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás, não é de hoje.
Mas só recentemente, com a publicação dos três últimos relatórios do IPCC, o mundo parece ter acordado.

Para o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Carlos Nobre, um dos 11 cientistas brasileiros que fazem parte do IPCC, o que aconteceu foi que “a ficha caiu” – como se dizia há 20 anos quando os telefones públicos funcionavam com fichas em vez dos atuais cartões.

IRREVERSÍVEL – As conclusões do IPCC sobre a responsabilidade do homem pelo aquecimento global e as projeções para os próximos 100 anos em cenários com o aumento da temperatura variando de 2 até 4 graus celsius tornaramse ainda mais contundentes por causa das evidências já perceptíveis, avalia Nobre. “Não há nada de absolutamente novo que não tenha sido sinalizado nos relatórios anteriores. A contundência do relatório veio junto com a percepção de que nós já estamos dentro da era das mudanças climáticas”, disse ele, lembrando que o aumento da temperatura vem sendo registrado “ano após ano”.Carlos Nobre refuta as críticas de alarmismo às conclusões do IPCC e acha que, em alguns aspectos, o relatório foi até conservador.
“Considero este relatório bastante realista e representa uma avaliação científica muito neutra.

Se ele (o relatório) aponta problemas, é porque esses problemas potencialmente existem. Agora, em nenhum lugar do relatório está escrito que é o fim do mundo; quem fala isso está concluindo coisas que não existem no relatório.

Os problemas são graves e potencialmente muito graves, no futuro, se nós não diminuirmos o risco das mudanças climáticas, que é reduzindo as emissões globais dos gases do efeito estufa. Por outro lado, nós já passamos do ponto do não-retorno, quer dizer, não dá mais para voltar ao clima do planeta antes dos gases. Então, algum grau de mudança climática já se tornou irreversível, então temos que nos adaptar a pelo menos este grau de mudanças climáticas, o de pelo menos 2 graus até final do século” (veja infográfico nas páginas 4 e 5).

Outro efeito da publicação dos últimos relatórios do IPCC foi o de criar um nivelamento da opinião pública. “Antes, a consciência deste problema estava mais forte em apenas alguns países, hoje já é um assunto global”, diz Nobre. Ao contrário do nível de consciência, que tende a se igualar em todo o mundo, o mesmo não acontece com o nível de responsabilidade com as causas do aquecimento.

Os países mais desenvolvidos têm a maior parcela de culpa. Apenas seis deles emitem 36% dos gases que fazem a Terra ficar mais quente que o normal, sendo os Estados Unidos o maior emissor.
Essa conta, feita nos anos 90, foi a base do Protocolo de Quioto, que estabeleceu responsabilidades diferenciadas entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento.

Previsto para entrar em vigor em 2008, o protocolo fixou metas de redução de 5,2% das emissões de CO2 registradas em 1990. O Brasil não estava entre esses países , mas a revelação de que a fumaça das queimadas das florestas o coloca em quarto lugar em emissões deixou o governo numa saia-justa.

Depois dos últimos relatórios do IPCC, a meta estabelecida em Quioto tornou-se muito aquém do necessário para evitar que nos próximos 100 anos a temperatura suba mais do que 2 graus, na avaliação de Osvaldo Soliano, coordenador de pesquisa em meio ambiente, desenvolvimento sustentável e energias renováveis da Unifacs.

MAIZA DE ANDRADE