Desemprego e baixa renda na raiz do problema
Fazer o “carreto” ou “frete” para os fregueses, assim como vender frutas, verduras e legumes, é a rotina do sábado de inúmeros meninos e meninas nas feiras livres de Wenceslau Guimarães e Gandu, municípios a cerca de 290 km de Salvador, no Recôncavo baiano. O trabalho começa cedo, e, na feira, tem de tudo: roupa, porco, galinha, com destaque para as farinhas e derivados de mandioca – a maior parte do povo vive da roça.
Às 6 horas, eles já vão chegando, sozinhos ou em grupos. Os menores, muitas vezes maltrapilhos, nem comeram a primeira refeição do dia. “Não tinha pão, só café. Eu não gosto de tomar puro. Dói a barriga”, queixa-se o pequeno Jorge Bastos da Conceição, 9 anos, enquanto empurra um carrinho de mão, maior que seu corpo frágil, na apertada feira livre de Wenceslau Guimarães. Sua jornada de trabalho começa às 5h e vai até as 15h.
Ele e mais 13 irmãos trabalham na lavoura, na roça da família, que fica em outra cidade. Givanildo, 10 anos, estuda, mas diz que prefere trabalhar. “Gosto de trabalhar aqui pra ganhar dinheiro. Minha mãe me mandou pra feira e juntar o dinheiro para comprar roupa para o São João e comida pra casa”, conta.
Wenceslau Guimarães e Gandu se destacaram, este ano, nas fiscalizações da Delegacia Regional do Trabalho (DRT). Em março, uma equipe de auditores identificou 121 crianças em Gandu (trabalhando na feira livre com carreto e como vendedores) e 82 em Wenceslau Guimarães (nas roças de pais ou familiares e fazendo carreto em feira livre).
DISPUTA – A disputa é grande nas feiras das duas cidades. Em dias de maior movimento, cada um leva, em média, R$ 8 para casa, renda usada na compra de roupa, calçado e para ajudar no orçamento doméstico.
O frete varia conforme a distância percorrida da feira até a casa do freguês. O custo mínimo é de R$ 2. O trabalho de cerca de oito horas rende a média de R$ 10 por semana e R$ 40 no mês.
Achar que o filho trabalhando é melhor do que passar fome ou roubar é uma opinião compartilhada pelos pais. Na humilde casa dos irmãos Jorge e Givanildo, a mãe se ocupa com os afazeres domésticos.
“Hoje (sábado), não tem aula. Eles gostam de trabalhar na feira. Como sou só, preciso que eles me ajudem. O pai não mora aqui, está na roça com os outros filhos. Labuto sozinha e só tenho o Bolsa Família, senão, morria de fome”, lamenta Maria Amélia Bastos.
SEM TETO – Os dois municípios são cercados de acampamentos e assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), espalhados ao longo da BR-101. São cerca de 200 famílias, que contribuem para o aumento da miséria e do número de menores trabalhando informalmente.
“São 13 assentamentos e três acampamentos dos sem-terra que temos aqui na região. São mais de 200 famílias. Todas as crianças vêm para o município à procura de trabalho na feira”, disse a secretária de Ação Social deWenceslau, Giszélia Gomes, que garantiu que o Peti será implantado em julho. O mesmo garantiu a secretária de Ação Social de Gandu, Maria da Conceição Figueiredo. Elas justificaram problemas burocráticos para a implantação do programa. O Conselho Tutelar de Gandu mantém um conselheiro na feira.
Segundo Rogério Sarmento e Genivaldo de Jesus, apesar da precária infra-estrutura do conselho, sem telefone e computador, eles tentam atuar de forma a evitar a exploração do trabalho infantil. O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) só atinge 20 crianças, e o AABB Comunidade, 40. Números considerados insuficientes.
“É pouco para o número de menores que precisam, mas o conselho não tem local para trabalhar com esses menores”, lamentou o conselheiro Genivaldo Jesus.
Ao longo da BR-101, também é possível ver diversas crianças expostas ao perigo da estrada, entre os pesados caminhões e no meio da pista, oferecendo o que têm em mãos, às vezes em troca de R$ 0,40, para adultos que ficam sentados no acostamento.
CRISTINA SANTOS PITA