Barra mantém resistência e exige a revitalização do rio

14/06/2007

Barra mantém resistência e exige a revitalização do rio

Garantir a revitalização antes da transposição. Esta é a exigência da maioria dos moradores de Barra – município distante 860 km de Salvador, no oeste do Estado. Hoje, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, vai conhecer o projeto piloto do Programa de Revitalização, a ser implantado em uma área de 12 km, dos quais 100 metros estão prontos.

O bispo da diocese de Barra, Dom Luiz Flávio Cappio, que ano passado fez uma greve de fome para chamar a atenção do País sobre o projeto de transposição, não estava na cidade ontem e pelas informações obtidas junto à secretaria diocesana, não estará na comitiva que vai receber o ministro. A expectativa é que o bispo só retorne à Barra depois do São João.

ySegundo a secretária diocesana Sofia Cavalcanti, a viagem de Dom Luiz Cappio às paróquias da diocese de Barra está ligada à festa de São João da cidade que começa dia 16 e se estende até o dia 24 de junho.

“Ele não gosta desse barulho, com as bandas tocando até de madrugada, principalmente porque o palco principal fica quase em frente a sua casa”, afirma.

De acordo com o administrador diocesano, José Bonifácio Silva, Dom Luiz está decepcionado com a atitude do governo federal, que se comprometeu em discutir amplamente o projeto de transposição com a comunidade. “Mas, na prática, isso não aconteceu”, diz Bonifácio, acrescentando que recentemente o bispo e representantes da sociedade civil organizada entregaram um documento ao governo federal pontuando sugestões para a revitalização e argumentando contra a transposição.

CONSCIENTIZ AÇÃO – No Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barra, o presidente Edmilson Evangelista se posiciona favorável à transposição “desde que se faça a revitalização de toda a bacia”. Ele destaca que é preciso uma maior conscientização dos ribeirinhos em relação ao desmatamento e aos dejetos lançados no rio.

Edmilson reconhece que o projeto de transposição “vai ficar caro para o Brasil enquanto nossos trabalhadores, que moram relativamente próximos ao rio, continuam perdendo suas colheitas por falta de água nas lavouras”.

Para o presidente do Sindicato, há a necessidade de promover audiências públicas nos municípios pertencentes à bacia hidrográfica do São Francisco “para que todos entendam exatamente o que é a transposição e o que é revitalização”.

Ele enfatiza que no município existem mais de 100 associações de produtores rurais, a maioria sofre com a carência de água para consumir e produzir, bem como necessita de assistência técnica.

POUCO PEIXE – Os moradores ribeirinhos do São Francisco e seus principais afluentes não precisam de equipamentos para perceber as mudanças ocorridas. “Antigamente o rio era todo navegável e o comércio era bom. Por causa disso, Barra era a principal cidade de toda a região”, diz o barqueiro Henrique dos Santos, 60 anos.

Ele recorda que todo o transporte era feito por via fluvial e que grandes vapores iam de Pirapora (MG) a Juazeiro (Bahia). “Isso aqui era uma maravilha, mas agora só passam as barcas pequenas, porque o rio está raso e é preciso muito cuidado para não encalhar nos bancos de areia”. O pescador Raimundo Alves, 29 anos, ressalta que o São Francisco sempre foi “bom de peixe”, mas que nos últimos anos o pescado está rareando. Ele atribui esse fenômeno às condições precárias do rio.

MIRIAM HERMES