Vale lança notas sem impacto sobre sua dívida

21/06/2007

Vale lança notas sem impacto sobre sua dívida

A Companhia Vale do Rio Doce captou US$ 1,88 bilhão num formato inovador para empresas brasileiras, vendendo papéis no exterior que são um híbrido de ações e títulos de dívida. Um meio rápido de captar dinheiro, menos trabalhoso do que uma oferta de ações e, por outro lado, que não amplia o endividamento da companhia - detalhe importante no caso da mineradora, que se alavancou pesadamente para comprar a Inco. 


Instrumento comum no mercado americano, os chamados "mandatory convertibles" (obrigatoriamente conversíveis) podem começar a ser usados por outras empresas brasileiras, que já avaliam a opção. A condição é que elas tenham ações em tesouraria -como a Vale - ou que tenham espaço em sua estrutura societária para a emissão de novas ações. 


Os títulos da Vale têm vencimento em junho de 2010, quando serão compulsoriamente convertidos em American Depositary Shares (ADS) da empresa, listados na Bolsa de Nova York. A operação foi coordenada pelos bancos Citigroup e JP Morgan. 


O investidor pagou US$ 50 por cada título e, até o vencimento, os papéis pagarão um cupom de 5,5% ao ano. O juro é inferior ao que a companhia pagaria em uma emissão de dívida tradicional. Além de ganhar com juros, o investidor pode se beneficiar da valorização dos papéis, respeitadas algumas condições - mas também corre o risco de queda no preço das ações. 


A operação prevê conversão dos títulos em ADS de ações ordinárias e também de preferenciais. Nos dois casos, o investidor só começa a ganhar com a variação dos papéis caso a valorização em três anos supere os 26%. Isso porque os primeiros 26% de ganho são embolsados pela própria Vale. No caso dos ADS de ON, o preço de referência (atual) é de US$ 45,80 e o preço de conversão é de US$ 57,71. Se a ação estiver acima de US$ 57,71 na data da conversão, o investidor ganha. Mas, se ela estiver abaixo de US$ 45,80, ele perde. 


Para os ADS de PN, o preço de referência (atual) é de US$ 38,59 e o de conversão, US$ 48,62. Vale o mesmo raciocínio. Se o preço em bolsa em junho de 2005 estiver acima de US$ 48,62, o investidor ganha. Mas, se estiver abaixo de US$ 38,59, ele perde. 


Os investidores dos mandatory convertibles são mais sofisticados do que os compradores de ações. São basicamente hedge funds que tendem a buscar oportunidades de arbitragem no mercado com esses papéis. 


A emissão dos convertibles é muito mais rápida e mais barata do que uma oferta pública de ações. Os títulos oferecem ainda uma vantagem fiscal, já que o cupom pago nos três anos reduzem o imposto de renda a pagar da companhia. Mas, embora recebam um tratamento de dívida para efeitos fiscais, esses papéis não são enquadrados como tal no balanço. Ou seja, não aumentam o endividamento e não têm impacto sobre a avaliação de risco da companhia. 


A Vale poderia ter optado por fazer uma oferta pública das ações em tesouraria já que queria levantar recursos e não pretendia cancelá-las. Mas, nesse caso, além do processo mais trabalhoso, a empresa teria que aceitar um desconto sobre o preço das ações no mercado, além de pagar o imposto de renda sobre o ganho de capital. 

VANESSA ADACHI