Investimento em açúcar com os dias contados

25/06/2007

Investimento em açúcar com os dias contados

Os investimentos no aumento da produção de açúcar estão com os dias contados. "Há muito açúcar no mundo", resume Martin Todd, diretor-gerente da britânica LMC International, respeitada consultoria do setor de agronegócio. "O Brasil deveria vender mais etanol", constata. 


O alerta de Todd, que ecoa entre a grande maioria de analistas do mercado de açúcar, é respaldado pelo comportamento dos preços internacionais da commodity nas bolsas internacionais nos últimos meses. Na bolsa de Nova York, por exemplo, os contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) acumulam queda de quase 42% nos últimos doze meses. Na sexta, eles até que registraram ligeira alta, mas permanecem abaixo de 10 centavos de dólar por libra-peso. 


Com isso, a tendência mundial é que os investimentos sejam mesmo concentrados em álcool combustível. E Todd lembra que Brasil e Estados Unidos estão fazendo fortes aportes em plantas novas para incrementar essa produção. O mix de produção de cana do Brasil já vem sendo direcionado para elevar a oferta de álcool, e o país tem a seu favor a crescente demanda doméstica dos carros flexfuel. 


Segundo Todd, a queda nos preços do açúcar teve como fator determinante a recuperação da produção de cana da Índia - segundo maior produtor mundial, atrás do Brasil -, além das sucessivas produções recordes brasileiras. A retomada da oferta indiana de açúcar, depois de dois anos de forte seca no país, voltou a pressionar os preços internacionais no mercado. 


Quando há mais oferta de açúcar para os destinos tradicionais, a oferta também se estende a regiões mais remotas. E, neste caso, a Índia tem uma vantagem competitiva sobre o Brasil, diz Todd. O país está melhor localizado, por exemplo, para atender de modo mais fácil e barato mercados como África, Golfo Pérsico e Mar Vermelho. Além disso, o governo indiano paga até 1.450 rúpias (US$ 33) por tonelada para compensar os elevados custos de escoamento do produto até os portos do país. 


De acordo com Todd, o Estado de Maharashtra, um dos maiores produtores do país, já foi além e concede um subsídio extra de aproximadamente US$ 10 por tonelada. "A Índia está pressionando o mercado", diz ele. 


A entrada de outros produtores de açúcar no jogo, como Rússia, China, Paquistão e Vietnã, não seria suficiente para abalar drasticamente o mercado, acredita o especialista. "Seria um aumento de 500 mil toneladas. Não é grande coisa", desdenha. 


Apesar de preocupações com o impacto ambiental da expansão dos canaviais no Brasil, o especialista afirma que a Europa ainda não encara com apreensão a atividade. O foco das atenções no momento está na Indonésia e na Malásia, grandes fornecedores asiáticos de óleo de palma para a Europa. A Holanda já embargou as compras do óleo devido a denúncias de desmatamento de florestas tropicais nesses países. 


"O Brasil está mais consciente disso [proteção ambiental] e tem mais noção do que está fazendo com a sua terra", acredita Todd, rebatendo as críticas de países, sobretudo europeus, que afirmam que a expansão da cana no Brasil ameaça a floresta amazônica. 

BETTINA BARROS E MÔNICA SCARAMUZZO