Em busca de espaço nos programas de apoio do governo

03/07/2007

Em busca de espaço nos programas de apoio do governo

Criadores de avestruz de todo o Nordeste do País aproveitaram os espaços oferecidos em Fortaleza (CE), na semana passada, durante o 11º Seminário Nordestino de Pecuária (PecNordeste), para reforçar a campanha de ampliação da margem de negócios da estruticultura brasileira, em quinto lugar no ranking mundial, com quase 15 mil abates em 2006. A África do Sul está em primeiro lugar, com 200 mil abates anuais.


O que discutiram em Fortaleza, eles vão levar para o 8º Congresso Brasileiro de Estrutiocultura, o AmericAvestruz, marcado para o período de 4 a 6 de outubro, na capital cearense. A pretensão dos produtores nordestinos, explicou por telefone para A TARDE Rural Josemar Carneiro, criador em Várzea Nova, na Bahia, e diretor da Cooperativa de Produtores de Avestruz da Bahia, é a sustentabilidade econômica do setor. "Buscamos a inclusão da cadeia produtiva do avestruz na pecuária nordestina, como já acontece com a caprinocultura, por exemplo, de forma a constar, também, dos programas governamentais de alimentação", disse Josemar Carneiro, presente ao seminário em Fortaleza, que debateu o agronegócio da pecuária nordestina.


No caso específico da cadeia produtiva do avestruz, criadores e empresários do setor analisaram pontos como crédito rural, marketing estratégico e mercado, temas que serão debatidos no mês de outubro, durante o AmericAvestruz. O presidente da Associação dos Criadores de Avestruz do Brasil (Acab), Luis Robson Muniz, disse em palestra, em Fortaleza, que o congresso de outubro vai contribuir para a estabilidade da estrutiocultura no Nordeste, região com um terço do plantel de avestruz do País, estimado em 426 mil aves.


Na avaliação dos criadores nordestinos, o crescimento do plantel brasileiro em 2006 deveu-se, em grande parte, ao empenho dos criadores da região, especialmente da Bahia – que ocupa o segundo lugar no ranking nacional. O Estado do Ceará é o sétimo maior produtor de avestruz do País e o quarto do Nordeste. A Bahia, além de deter o segundo maior rebanho do País, ocupa, também, a segunda posição entre os Estados produtores de carne de avestruz, com um volume anual de 750 toneladas. "Já vendemos carne de avestruz para os Estados do Amazonas, Rio de Janeiro, Sergipe e São Paulo, com um volume mensal de 4 toneladas, além de abastecermos o mercado estadual, com cerca de 3 toneladas de carne por mês, para supermercados, restaurantes e pontos diversos", informou Josemar Ribeiro, acrescentando que na Bahia quatro frigoríficos já beneficiam e fornecem carne. Dois desses frigoríficos (Baby Bode e Frifeira), em Feira de Santana, funcionam sob o Selo de Inspeção Federal (SIF) e os outros dois (Frisaj e Campo do Gado), em Santo Antônio de Jesus e Feira de Santana, respectivamente, têm autorização estadual.


“A carne do avestruz é saudável, comprovadamente uma carne funcional, e seu preço já está em um patamar acessível (entre R$ 15 e R$ 25 o kg), daí pleiteamos sua inclusão nos programas sociais do governo federal, a exemplo do de erradicação da fome", defende o produtor baiano, certo de que a criação de avestruz deve ser vista como uma atividade pecuária com perspectivas de rendimento para a economia regional. "Não pode ser diferente da criação de caprinos, de frango, de suínos", completa, confiante na atividade e certo de que o mercado no Nordeste voltou ao normal, após o caso da Avestruz Master.

SEM EXPORTAR – Mas a Bahia ainda não exporta carne de avestruz, por conta de algumas especificações a cumprir. Em seu site, a Associação dos Criadores de Avestruzes do Brasil mostra um mínimo de pré-requisitos para a exportação da carne de avestruz para a Europa, por exemplo. Estão relacionados reconhecimento sanitário internacional do Estado, planta frigorífica com SIF habilitado para a Comunidade Européia, inserção do avestruz no Plano Nacional de Controle de Resíduos, criatórios registrados no Ministério da Agricultura e criatórios monitorados pelo Plano Nacional de Sanidade Avícola do ministério e da própria associação. Segundo a Abac, apenas os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul estão em condições de exportar carne de avestruz.

Brasil já desponta como um país emergente na indústria do avestruz

O Brasil é o quinto maior produtor de carne de avestruz, conforme um levantamento divulgado recentemente pela Associação dos Criadores de Avestruz do Brasil (Acab) em seu site. O levantamento foi feito a partir de informações do Ministério da Agricultura, associações e agentes de mercado. Pelos números, em 2006, foram abatidas 14.306 avestruzes em todo o País, gerando cerca de 430 toneladas de carne, o que dá, pelos cálculos da associação, um consumo per capita de 0,002 kg/hab/ano do produto no Brasil.

Um percentual baixo, reconhece a Acab, se comparado ao consumo de carne bovina (38,7 kg/hab/ano), suína (12,2 kg/hab/ano), de frango (36,1 kg/hab/ano), peru (1,1 kg/hab/ano) e de pato (0,02 kg/hab/ano). Mas, em relação ao ano anterior (2005), houve um crescimento acima de 800%. “Isso demonstra a entrada do Brasil na industrialização dos produtos do avestruz“, diz Luis Robson Muniz, presidente da Acab.

No cenário internacional, o maior produtor continua sendo a África do Sul; porém, sua hegemonia começa a ser ameaçada pela China. Em seguida vêm Austrália e Zimbábue. O Brasil desponta como um país emergente na indústria global do avestruz, aparecendo pela primeira vez entre os cinco maiores produtores de carne no setor.

Depois do Brasil, aparecem Estados Unidos (12 mil abates), Hungria (10 mil), Israel (8 mil), Filipinas (7,5 mil) e Espanha (7 mil abates anuais). A estimativa da associação é a de que a produção em 2007 cresça em torno de 75%, chegando a 25 mil abates. Este crescimento mais contido é reflexo do consumo interno ainda pequeno. ”Embora tenhamos massa crítica para aumentar a disponibilidade de carne, o consumo efetivo do mercado não sugere um crescimento maior. Porém, caso as exportações sejam liberadas, esta expectativa deve subir, ultrapassando seguramente um crescimento de 100%", acredita Muniz.

O presidente da Acab diz que a associação está centralizando sua gestão no mercado interno, participando com planejamento estratégico e campanha de marketing para estimular o consumo da carne no Brasil e, ao mesmo tempo, envidando esforços para possibilitar a sua exportação, abrindo o mercado internacional para a carne de avestruz brasileira.

MAIS ESTUDOS – A partir de estudos mercadológicos junto ao IBGE e com dados estatísticos cruzados, a Acab estima que aproximadamente 3 milhões de brasileiros (classe AA, A e B) – 1,6% da população brasileira – podem pagar pela carne de avestruz no Brasil, entre R$ 15 e R$ 60 o quilo.

Com base nos estudos, a Acab procura demonstrar que, caso o consumidor fosse sensibilizado a comer carne de avestruz e a introduzi-la em seu cardápio, mesmo que esporadicamente, o consumo seria bem maior.

A associação dos criadores de avestruz mostra que, caso a faixa da população avaliada consumisse uma refeição com filé de avestruz por mês, haveria um consumo per capita de 0,05 kg/hab/ano (aumentando 25 vezes). Assim, seria necessária, para atender a esta demanda, uma produção de 9 mil toneladas de carne (quase o atual consumo da Europa), com o respectivo abate de 300 mil aves – praticamente 75% do atual plantel brasileiro.

ARI DONATO