Curiosidades Gerais - SUCESSÃO NO CAMPO
“A população rural está envelhecendo e os jovens estão migrando para as cidades em busca de oportunidades, o que compromete a sucessão nas propriedades”
A sobrevivência da propriedade rural passa, necessariamente, pela sucessão familiar e é motivo de preocupação na fruticultura, a exemplo de outras atividades do campo. Mesmo assim, são poucas as iniciativas voltadas para a fixação do jovem no meio rural e a garantia do processo sucessório.
A Cocamar, de Maringá (PR), é uma das poucas empresas do Brasil que se preocupa com o problema, tanto que criou o Projeto Núcleo Jovem Cocamar, voltado para filhos e netos de produtores rurais cooperados. “A idéia é prepará-los para a sucessão e conscientizá-los em relação ao futuro da propriedade, visando mantê-los no campo”, explica o gerente de cooperativismo de eventos da entidade, Marcelo Bergamo.
O núcleo é formado por 30 jovens da área de atuação da Cocamar em diversos municípios e se reúne uma ou duas vezes por mês para participar de cursos e palestras. “Queremos mostrar ao jovem que ele não precisa sair do campo em busca de emprego. Investindo na propriedade, ele pode ganhar mais do que na cidade”, argumenta. No grupo, há jovens cujos pais cultivam frutas cítricas, inclusive em integração com grãos e café.
“Nosso objetivo é diversificar os negócios da pequena propriedade rural e a laranja para indústria está inserida nesse contexto, assim como a tangerina, para venda in natura”, observa o gerente, que considera a integração dessas culturas com o cultivo de café adensado, por exemplo, ou com outras atividades, fundamental para a sobrevivência dos pequenos produtores e para a continuidade do seu negócio.
Segundo Bergamo, a cooperativa também desenvolve um programa para as esposas dos cooperados. “Existe uma preocupação muito grande com a questão sucessória na atividade rural, pois nem todos os proprietários estão preparados para transferir o comando das terras aos filhos. Da mesma forma, é importante que as mulheres e filhos participem mais, pois, em caso de perda do marido, a atividade sobrevive”, ressalta. Nesse sentido, o Grupo de Mulheres Núcleo Feminino da Cocamar visa aprimorar o conhecimento das mulheres na administração da propriedade e ajudar a concretizar esse processo de sucessão.
FORÇA JOVEM
Caroline Manzotte, de 19 anos, faz parte do Projeto Núcleo Jovem Cocamar. Ela terminou o colegial e em julho vai prestar vestibular para agronomia. “Quero dar continuidade ao trabalho na propriedade”, diz ela referindo-se ao Sítio Alvorada,de seis hectares, em Japurá, no noroeste do Paraná, onde mora e ajuda o pai na colheita de laranja para indústria. São 4 hectares com a fruta, no total, 14 mil pés, cuja produção é entregue para a Cocamar. Parte da área é dedicada à criação de frangos em galpões, em sistema de integração com uma empresa da região. O pai tem outro sítio, onde cultiva goiaba.
Caroline participa dos encontros mensais do Projeto Núcleo Jovem Cocamar. “Discutimos assuntos da propriedade, oportunidade para os jovens e benefícios que a Cooperativa pode oferecer aos cooperados e aos seus filhos”, conta a jovem que depois de formada, quer tocar o sítio, que fica na zona rural, além de prestar serviço para outras propriedades. Embora na região tenha poucos pomares de laranja, ela pretende se especializar na cultura. “Quero continuar trabalhando junto com meu pai; gosto do sítio, sempre vivi aqui ao lado da minha família”, argumenta. Pelo menos, por enquanto, o futuro do sítio parece estar nas mãos de Caroline, que tem duas irmãs mais novas, uma de 17, que pretende fazer odontologia, e uma de 12, que ainda não definiu sobre o que pretende fazer.
PESQUISA APONTA PROBLEMAS E SOLUÇÕES
Autor de dois livros e alguns trabalhos sobre sucessão na agricultura, o engenheiro agrônomo Milton Luiz Silvestro, da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina), tem acompanhado de perto problema no Estado. “Um terço das 88 mil propriedades familiares do Oeste Catarinense, num universo de 100 mil famílias, não tem sucessor, não há nenhum filho morando com pais, nem moças nem rapazes”, afirma com base em pesquisa que vem realizando na região desde 1999. “A ausência de um sucessor pode comprometer a atividade”, sentencia.
Segundo ele, algumas propriedades pesquisadas têm sido transformadas em sítio de lazer, enquanto outras são vendidas para grandes produtores. Há, porém, algumas cujos donos continuam na atividade, mas sem perspectiva. O quadro geral, explica, é de sobrecarga de trabalho, comprometimento do desempenho econômico, envelhecimento da população do campo e de migração juvenil acentuada de pessoas do sexo feminino, que saem primeiro em busca de oportunidades na cidade, com predomínio da população masculina no campo. “As mães estimulam as filhas a construírem o futuro fora da propriedade, até porque o sexo feminino tem pouco espaço nas decisões de gestão; a sucessão é basicamente estruturada na figura masculina”, diz.
Silvestro conta que no passado os jovens permaneciam na agricultura, hoje, ao contrário, rejeitam a atividade, que consideram penosa e mal remunerada, razão pela qual preferem construir o futuro fora desse setor.
Embora não tenha conseguido fazer uma estratificação econômica nas suas pesquisas, o agrônomo constatou que a fruticultura é uma atividade mais estável do ponto de vista de renda, por ser menos sujeita aos riscos climáticos e econômicos. O desafio, em qualquer segmento da agricultura, na opinião de Silvestro, é definir o mais cedo possível o sucessor e prepará-lo para ser o novo agricultor que vai assumir a propriedade, começando a participar, no dia a dia, das decisões e dos negócios.
Dentro as iniciativas para a fixação do jovem no campo, o agrônomo aponta a necessidade de políticas públicas para instalação do jovem na agricultura, dando oportunidades de profissionalização e capacitação, moradia, acesso à terra e até financiamento a fundo perdido. Estímulo à participação do jovem nas decisões da propriedade, criação de espaços para os jovens discutir os seus anseios, construção de espaços de lazer e culturais para amenizar as diferenças com o meio urbano, são outras sugestões de Silvestro.
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Matéria retirada da Revista Frutas e Derivados
Site: http://www.ibraf.org.br/revista/revista.asp
Fonte: Revista Frutas e Derivados