Europeus apertam cerco contra a carne brasileira
Quanto mais as exportações brasileiras de carne bovina crescem, mais ferozes são as reclamações na União Européia contra a entrada do produto no bloco.
O bombardeio, liderado por pecuaristas irlandeses, chegou agora ao ombudsman da UE, recurso nunca antes utilizado por representantes europeus do setor agropecuário. O ombudsman investiga casos de má administração em instituições e organismos do bloco. O alvo da ira de um grupo de 12 associações da Grã-Bretanha e Irlanda é o comissário de Saúde e Proteção do Consumidor da UE, Markos Kyprianou, acusado de facilitar a entrada da carne brasileira e de interferir nos direitos dos agricultores europeus.
Sob fogo cerrado, a comissária de Agricultura da UE, Mariann Fischer Boel, também pressiona Kyprianou a realizar "uma convincente e efetiva" investigação sobre acusações domésticas como o uso de hormônios e desrespeitos socioambientais no processo produtivo no Brasil. A ofensiva prosseguirá na segunda-feira, quando o Comitê de Agricultura do Parlamento Europeu examinará um relatório preparado por uma missão não oficial enviada ao Brasil pelos irlandeses para coletar munição.
De acordo com o ex-ministro Pratini de Moraes, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Bovina (Abiec), as acusações são baseadas em visitas "a propriedades que ninguém conhece", de regiões que não exportam carne. "Eles não visitaram nenhum frigorífico associado à Abiec", afirma o executivo. Ele observa que a UE já enviou várias missões oficiais ao país para vistoriar a produção de bovinos e fez observações e recomendações, mas sem qualquer condenação.
O verdadeiro problema, diz Pratini, é comercial, já que no caso de cortes nobres a carne européia chega a ser vendida no varejo a preço oito vezes maior que a brasileira. E, com tamanha diferença, as importações da UE seguem em alta, colaborando para o contínuo aumento dos embarques do Brasil, que no primeiro semestre totalizaram US$ 2,2 bilhões.
Se depender das mudanças estruturais em curso na cadeia bovina do país, as reclamações vão aumentar. Com a profissionalização dos frigoríficos - Friboi e Marfrig já abriram o capital -, problemas fiscais e sanitários são mais fortemente combatidos e a eficiência da cadeia tende a crescer.
ASSIS MOREIRA E ALDA DO AMARAL ROCHA