Microprodutores preocupados com entressafra

16/07/2007

Microprodutores preocupados com entressafra

O aproveitamento da farinha extraída do feijão catador (também feijão-caupi ou feijão-de-corda) tem animado microprodutores baianos das regiões da Serra Geral da bacia do São Francisco. No município de Igaporã, com apoio da Associação dos Municípios da Serra Geral e Bacia do São Francisco (Amavale), com 22 prefeituras, alguns deles produzem, em fase de experiência, pães, bolos, tortas e doces com a farinha do feijão. Agora, buscam apoio do governo para implantação de uma unidade panificadora na região.

Estão preocupados com a queda, nos últimos anos, nas vendas do catador produzido na Bahia, em razão de o principal mercado comprador do produto baiano (a Grande Fortaleza) estar saturado com a produção do Ceará, onde a irrigação aumentou a produção.

Esta situação, que atinge aos pequenos produtores baianos, pode ser danosa para a cultura do catador no Estado. “É preciso que o poder público encontre alternativas para a sobrevivência do feijão catador”, avalia o deputado estadual Gilberto Brito, que desde 2003 busca incentivos oficiais para esta cultura. Lembra que a Bahia foi o primeiro Estado a plantar esta variedade, originária da África.

REUNIÃO – No início do mês, após uma reunião em Salvador, a Secretaria de Desenvolvimento e Integração Regional anunciou a possibilidade de uma parceria com a Amavale para implantar a unidade panificadora e um curso de utilização da farinha do feijão-caupi, em conjunto com a Universidade Estadual do Sudoeste (Uesb).

O secretário Edmon Lucas sugeriu, na ocasião, que as 22 prefeituras da região poderiam comprar os alimentos produzidos pela unidade para a merenda escolar. O prefeito de Igaporã e presidente da Amavale, Deusdete Fagundes de Brito, apoiou a proposta, por entender que vai permitir o aproveitamento do feijão, cujo valor para comercialização cai em mais de 70% após o pico da safra.

Acarajé inspira pesquisa da Embrapa

A região Nordeste é responsável por 89,9% da produção nacional do feijão catador e por 94,3% da área colhida no País, segundo dados da Embrapa, que identificou alguns entraves para a cultura, depois do plantio. Além de desperdícios no transporte e na comercialização, os grãos são de difícil armazenagem, por serem muito sensíveis a alterações pós-colheita. Após dois meses, começam a ganhar uma cor escura e demoram para cozinhar.

Para amenizar a situação, a Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza (CE), realizou pesquisa no sentido de agregar mais valor ao produto e permitir a comercialização em períodos de entressafra.

Um dos trabalhos, que teve supervisão dos pesquisadores Edy Sousa de Brito e Antônio Calixto Lima, é a criação do salgadinho frito de feijão-caupi. Produzido a partir da massa do feijão triturado, o salgado possui duas vezes mais proteínas que a batata frita, mas com apenas metade da gordura. Mesmo depois de frito, o produto mantém elevados teores de amidos e proteínas, constituindo-se uma importante fonte energética e nutricional.

Segundo Edy Brito, a inspiração para a criação do salgadinho veio de um dos símbolos da cultura da Bahia e que também é feito com feijão-caupi. “Na verdade, esse produto tem como inspiração o nosso acarajé. O que fazemos é preparar uma massa com o feijão, dar a forma que desejamos e depois fritar. Ele acabou ficando parecido com a batata frita”, afirmou.

O salgadinho de feijão-caupi, feijão catador, possui duas vantagens sobre o acarajé: ele pode ser congelado, o que aumenta muito o seu tempo de prateleira, e não necessita de nenhuma outra matéria-prima em sua fabricação, a não ser o próprio feijão.