Produtores do Oeste estão preocupados

16/07/2007

Produtores do Oeste estão preocupados

Em meio à euforia do crescimento do algodão na região oeste do Estado, com quase 300 mil hectares plantados, surge o alerta do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), João Carlos Jacobsen, de que as condições de sustentabilidade na próxima safra estão ameaçadas. Entre essas condições estão câmbio desfavorável, as más condições de logística de escoamento e a falta de reformas significativas nas áreas trabalhista e tributária.

Diz, ainda, que os preços não cobrem os custos de produção.
“Com as médias de produtividade nacional atuais entre 230 e 240 arrobas de algodão em caroço por hectare, o equivalente a 95 arrobas de pluma, pode resultar em uma diminuição significativa de área plantada”, afirma. Na sua avaliação, se não surgir um programa político de longo prazo, que garanta preços mínimos, poderá não haver competitividade no futuro.

De acordo com o presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Walter Horita, nas últimas três safras, quando se abateu sobre o agronegócio nacional uma das maiores crises, o algodão ajudou a manter aquecida a economia regional. Ele enfatiza que, como a matriz produtiva é diversificada, “o produtor que tinha algodão atravessou a crise com menos dificuldades, pois os preços estavam melhores”.

Mas a situação tende a se modificar e Walter Horita teme que, na próxima safra, o produtor tenha de investir ainda mais em gestão de custos e tecnologia, para agregar maiores produtividades às suas lavouras, para neutralizar a situação. “A competência do cotonicultor do oeste tem garantido marcas inéditas de produtividade. Estamos fazendo a nossa parte, mas o governo precisa realizar ajustes”, diz o presidente da Abapa.

A necessidade de adequações governamentais, como a redução de juros de custeio e de investimento, bem como conseguir maior agilidade na realização dos estudos de novas variedades transgênicas, é enfatizada pelos presidentes das duas associações. Para João Carlos Jacobsen, é preciso reduzir os encargos na folha de pagamentos e melhorar as condições das estradas, portos e aeroportos.

No mercado futuro, os especialistas vislumbram algum aumento nos preços do algodão no mercado internacional. Na semana passada, o produto baiano estava cotado em R$ 39,02 o fardo (15 kg) de algodão em pluma e R$ 15 o do algodão em caroço. Porém, segundo os produtores, no período em que o dólar estava em torno de R$ 2,20, esses valores cobriam os custos de produção. Agora, com o dólar a R$ 2, já não são suficientes. O economista e corretor de Commodities Raimundo Santos Dias ressalta que os produtores, além de diminuir custos, ganhar em produtividade e fazer planejamento financeiro e comercial, terão que conhecer mais sobre o mercado futuro. Ele justifica, dizendo que já há produtores negociando a safra 2010.

“Isso acontece porque esse produtor já conquistou o mais importante, que é a credibilidade no mercado internacional”, afirma Santos Dias, destacando a capacidade de o cotonicultor baiano garantir a oferta e honrar os contratos. Para Jacobsen, o ideal é negociar cerca de 50% da produção em contratos futuros, ou pelo menos o equivalente aos custos “mas isso vai depender de cada situação”.

SEGUNDO LUGAR – Com uma matriz produtiva diversificada, o cerrado baiano tem se destacado pelo crescimento da área de algodão, que nesta safra foi plantado em 276.355 hectares, e pela produtividade, com média de 250 arrobas por hectare, chegando a produzir 280 arrobas por hectare em fazendas mais tecnificadas. Até a semana passada, cerca de 50% da área já havia sido colhida e o movimento com as colheitadeiras prossegue até o final do mês.

A cultura, que começou em larga escala na região há uma década, registrou um crescimento de 30,5% na produção em relação ao ano passado, saindo de 772 mil toneladas de algodão em caroço para mais de um milhão de toneladas de acordo com estimativa da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). Em área plantada, o incremento foi de 29%, consolidando a Bahia como segundo maior produtor nacional, atrás do Mato Grosso, que nesta safra está produzindo 793,3 mil toneladas de algodão em pluma. Com esses números, os cotonicultores já respondem por 30% da produção nacional. Porém, não foi apenas em índices de produção e produtividade que o Estado teve bom desempenho.

Na última safra, o algodão já correspondeu a 51% do Valor Bruto da Produção (VBP) do oeste da Bahia, excetuando-se a pecuária. Para a safra 2006/2007, a receita regional obtida com o agronegócio está estimada em cerca de R$ 3 milhões. A cultura do algodão, que em área representa 17% da produção do cerrado baiano, deve ficar em cerca de R$ 1,6 milhão. A produção primária do algodão, envolvendo preparo do solo, plantio, capina, tratos culturais e colheita, promove mais de 12 mil empregos diretos, permanentes e temporários. Além destes postos, gerados no campo, mais 3 mil pessoas estão empregadas nas 54 beneficiadoras que processam a produção regional da fibra.

CONQUISTA DO SETOR – Este ano, entre as conquistas mais comemoradas pelos produtores de algodão da Bahia está a escolha do Estado para a instalação do Selo Purê Brazil Cotton de denominação de origem, de iniciativa da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit). O selo funciona como certificado de qualidade e foi decisivo para a vitória histórica da fibra brasileira em concorrência com o algodão egípcio no início do ano, quando a fibra produzida nas fazendas do oeste foi matéria-prima para a confecção de 16 milhões de peças industrializadas, que ocupam espaço em uma das mais importantes cadeias varejistas dos Estados Unidos, a JC Penney.

Uma outra vitória dos cotonicultores baianos foi a manutenção do Programa de Apoio à Cultura do Algodão (Proalba), anunciado durante visita do governador Jaques Wagner à região. O programa concede incentivos fiscais de até 50% do valor do ICMS incidente sobre a pluma vendida para outros estados brasileiros. Mas, apesar de o anúncio ter sido feito em maio, os produtores ainda esperam a efetiva implementação das mudanças pelo governo do Estado.

Difusão de tecnologia agrícola

Na busca por mais qualidade e produtividade para o algodão baiano, a partir de 2008, o oeste do Estado vai contar com o Centro de Pesquisa e Difusão de Tecnologia Agrícola. Os recursos para implantação do empreendimento serão provenientes da iniciativa privada, com aporte financeiro do Fundo para o Desenvolvimento do Agronegócio do Algodão (Fundeagro), da Fundação Bahia e da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).

Além do algodão, o centro abrigará, também, os ensaios de pesquisas com soja, milho, café e cana-de-açúcar.
Instalado no município de Luís Eduardo Magalhães, por conta de um convênio entre a Abapa e a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), e com capacidade de produção de 200 mil amostras, em cada safra, o Centro de Análise de Fibra recebeu do International Cotton Advisory Comittee (Icac) uma das mais altas notas concedidas a laboratórios de análise de fibras em todo o mundo.

Com a máquina HVI (High Volume Instrument), o centro recebeu nota 0,48, durante o julgamento – promovido a cada três meses pela entidade internacional – durante o Quarterly Trial 2007. De acordo com as normas do Icac, quanto mais próxima de zero, maior é a pontuação. A maior nota concedida no julgamento foi de 0,22 e a média ficou em 0,61.