Cacauicultor cria associação para negociar com o governo
Mais de 700 produtores de cacau definiram, ontem, a criação de nova associação na região cacaueira, para ser um forte instrumento de pressão e o canal direto dos agricultores com o governo federal. A idéia dos produtores, todos integrantes da lista do cacau, um grupo de discussão via internet que reúne mais de 800 pessoas, é sair da letargia de 20 anos de crise provocada pela vassoura-de-bruxa.
O objetivo da nova associação é agregar força e partir para a ação, iniciando um marco na recuperação do cacau. “Vamos agir junto ao governo como empresários”, afirmou um dos coordenadores da reunião, o produtor Gonçalo Pereira, chefe do Departamento de Genética e Evolução da Unicamp e um dos pesquisadores que trabalham com o Projeto Genoma do Cacau, que visa ao melhoramento genético do cacaueiro.
Os produtores têm pressa e querem aproveitar a proposta de verticalização do Programa de Aceleração do Desenvolvimento da Cacauicultura (PAC), do governo federal, para dar a contrapartida, promovendo treinamento de produtores e trabalhadores, a diversificação e controle interno de crédito, através da fiscalização dos financiamentos.
O pesquisador adiantou que no lançamento da nova associação, daqui há um mês, será apresentada a cartilha que explica a técnica de controle da vassoura-de-bruxa, desenvolvida pelo produtor Edvaldo Sampaio, que fez uma revolução no controle da doença. Sampaio produz em sua fazenda, em Nilo Peçanha, 15 mil arrobas de cacau por ano e colhe uma média de 86 arrobas por hectare, três vezes mais que a média da região. Esse volume representa 45% dos seus custos de produção.
“Temos que começar mostrando ao governo que a região tem instrumentos para combater a vassourade-bruxa. Essa é uma das condições para a renegociação dos mais de 800 milhões de dívida da lavoura e a liberação de novos recursos pelo PAC”, ressaltou Gonçalo Pereira, durante os debates.
Sampaio, que fez palestra, explicou que a técnica consegue tirar a sincronia e matar o fungo Crinipellis perniciosa, causador da doença. Para isso, ele faz uma poda antecipada, entre os meses de setembro e dezembro, que provoca o amadurecimento dos ramos do cacaueiro no período que há mais fungo no campo. Em março, ele coloca grande quantidade de uréia (nitrogênio) na planta, o que induz o fungo mudar da fase biotrófica (vivendo em tecido vivo) para a de tecidos mortos (necrotrófica).
O sinal que o fungo reconhece para mudar de fase é quando o cacaueiro começa a morrer. Então ele aduba antes das chuvas, gerando uma quantidade de nutrientes vivos. Quando o fungo muda, a planta ainda está viva e, com esse engano, ele perde a sincronia e morre. Por fim, o produtor cuida das raízes, porque o solo é como uma caderneta de poupança, e faz análise para regular a acidez (PH) e só depois vê se é preciso ou não fazer adubação.
Para agilizar a formação da nova associação, os produtores aceitaram aproveitar a estrutura da Comissão de Apoio à Recuperação da Região Cacaueira (Comacau), que terá novo nome e novos estatutos. Esse trabalho será feito por oito produtores, escolhidos na reunião de ontem.
Os produtores entendem que não há tempo a perder, já que o governo acena com recursos novos do plano de aceleração da recuperação da lavoura. Eles querem se espelhar na estrutura vitoriosa criada pela associação dos cafeicultores. Os produtores destacaram a necessidade de se definir quais os projetos de diversificação viáveis, porque a região não agüentaria mais insucesso.
ANA CRISTINA OLIVEIRA