Campo Alegre sofre com longa estiagem
Em situação de emergência decretada, o município de Campo Alegre de Lourdes (distante 820 km de Salvador) passa por uma de suas piores secas nos últimos anos. A população de cerca de 30 mil habitantes vive 75% na zona rural, distribuída em oito distritos e diversos povoados que ficam muito distantes da sede e que estão vendo este ano algo que jamais ocorreu: todos os dez reservatórios de água de chuva existentes do município estão sem água.
A chuva mais recente, em abril, foi insuficiente e não há expectativas de que no período chuvoso, que deve começar em novembro, venha mais. Com balde na cabeça, Delioneide Ferreira dos Santos sai de sua casa, no povoado de Vereda Grande, próximo ao distrito de Angico, pelo menos quatro vezes ao dia, e anda cerca de 500 metros até uma cacimba já quase sem água para tentar levar um pouco do líquido lamacento para casa. “Temos cisterna, mas, como chove pouco, temos que economizar muito, e é necessário andar e pegar essa água para limpar a casa e lavar roupa”, conta a moradora.
Ao lado da porteira no caminho da cacimba, Alice Cordeiro dos Santos, de 74 anos, lembra um tempo em que a chuva era mais forte e os barreiros viviam cheios de água. “Sempre foi difícil, mas hoje é muito pior, principalmente porque pouca gente aparece para ajudar”. Alice mora numa área que faz limite entre os municípios vizinhos de Campo Alegre de Lourdes e Remanso e fala da dificuldade de apoio das prefeituras quanto à atenção às comunidades.
AJUDA – O prefeito Alessandro Dias Rodrigues (PCdoB) afirma que faz o que pode para tentar amenizar a situação de necessidade da população mais carente. Além do decreto de emergência, iniciou um programa de ajuda que estabelece a distribuição de cestas básicas a 250 famílias, ajuda de R$ 70 a outras 280 famílias, criação de hortas comunitárias para ajudar da geração de renda com até R$ 200 por família.
Com os três carros-pipa existentes, a prefeitura pega água em Remanso (cidade à margem do Lago de Sobradinho e que fica a 135 km) para levar às comunidades. Seriam necessários mais 12 para dar conta de toda a população carente de água.
“Precisamos ampliar a construção de sistema de captação água de chuva, perfurar mais poços artesianos, conseguir mais dessalinizadores, e da intervenção do Estado com ajuda dos políticos que tiveram expressividade em nossa região”, assinala o prefeito.
Rodrigues cita alternativas para melhorar o sistema de abastecimento do município, que, depois de 28 anos de emancipação, ainda não possui água encanada tem que combater os altos índices de casos de dengue causados pela quantidade de reservatórios água nas residências na sede.
“Esperamos a conclusão do projeto de trazer água a Campo Alegre do município vizinho Pilão Arcado por meio de uma adutora. Nós temos a esperança da vinda de recursos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), verbas que podem vir também da Funasa, pelas questões saúde”, afirma o prefeito.
Rodrigues não descarta a possibilidade de que o município seja inserido no Projeto de Transposição, pois, “apesar de fazer parte Bacia do São Francisco, estamos 78 km do rio e sofremos tanto quanto os Estados que serão beneficiados pelo projeto”.
EMERGÊNCIA – A Coordenação de Defesa Civil informa que municípios estão em situação emergência por causa da seca. Na emergência, o Estado observa critérios para homologar a situação, quando o município tem ainda condições de atender a população.
O prefeito só decreta calamidade quando esgota toda a possibilidade (financeira e logística) para sanar as conseqüências do desastre natural (cheia ou seca). Estão em situação de emergência: Abaré, Caculé, Campo Alegre, Central, Curaçá, Igaporã, Itatim, Juazeiro, Livramento, Mulungu do Morro, Paratinga, Pilão Arcado, Remanso, Riacho de Santana, Serra Dourada, Sobradinho e Tremedal. A informação é da Coordenação de Defesa Civil (Cordec).
CRISTINA LAURA