Leilão vende apenas energia de térmicas a óleo combustível

27/07/2007

Leilão vende apenas energia de térmicas a óleo combustível

As usinas movidas a gás natural faltaram, as térmicas a biomassa também e as hidrelétricas seguiram o mesmo caminho. Mas apesar de tamanha ausência, o leilão de energia nova A-3 do governo federal conseguiu comercializar projetos, que juntos têm potência instalada de 1,731 mil megawatts (MW). Inicialmente, o pregão tinha à disposição ao redor de 3,3 mil MW. 

Mesmo tendo comercializado volume considerável, o fato é que a fonte responsável por gerar esse montante, as usinas térmicas a óleo combustível, desagradou agentes do setor. E as opiniões colocaram em lados opostos autoridades do governo e agentes do setor no país. 

Tanto é assim que Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), companhia ligada ao Ministério de Minas e Energia, classificou o pregão de ontem de "sucesso absoluto". "O leilão de ontem só serviu para encarecer e sujar ainda mais a nossa matriz energética", afirma Marcelo Parodi, co-presidente da comercializadora independente do insumo Comerc. 

Já Jerson Kelman, diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), foi enfático. Por meio de sua assessoria de imprensa, Kelman disse que não havia nada a comemorar nesse leilão. "É uma triste vitória para uma legião de ambientalistas bem intencionados que têm sistematicamente impedido a construção de hidrelétricas. Se nos últimos anos não tivessem criado obstáculos artificiais ao processo de licenciamento e recorrido corriqueiramente à Justiça em busca de decisões liminares, a maior parte da demanda já teria sido atendida no leilão realizado dois anos atrás e as hidrelétricas estariam em plena construção", diz. 

As críticas não param por aí. Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, afirma que o leilão de ontem aumentou sua apreensão quanto aos rumos do setor de energia no país. "A demanda das distribuidoras de energia foi atendida de fato no pregão, mas a verdade é que transformaram uma solução emergencial em definitiva", afirma Sales, referindo-se às usinas movidas a óleo combustível. 

Em outras palavras, o presidente do instituto chama a atenção para o fato de o leilão ter comercializado energia de térmicas a óleo combustível, cujo contrato é de 15 anos. Em 2001, quando o Brasil atravessou o racionamento do insumo, esse tipo de usina foi colocada à disposição do sistema por um período de quatro anos. 

Tolmasquim, contudo, pensa diferente. Para o presidente da EPE, a comparação com as térmicas a óleo combustível usadas em 2001 não é correta. "Essas usinas que vão entrar em 2010 consomem 21% a menos de combustível do que as usadas no início dos anos 2000. Além disso, tem rendimento médio de 43%, enquanto que àquelas tinham um indicador de 33%", diz. 

O presidente da EPE afirma ainda que essas usinas não são a pior opção do ponto de vista ambiental. Segundo Tolmasquim, as térmicas a óleo emitem carbono mais que uma a gás, mas menos que uma a carvão. "O Brasil está perdendo sua eficiência. Mas é pior ficar sem energia", diz Sales. 

Apesar de todo o questionamento quanto ao uso de térmicas a óleo combustível, o fato é que todos concordam que a demanda foi contratada para 2010. O leilão, que movimentou R$ 23,09 bilhões e teve um preço médio de R$ 134,6 por megawatt/hora, trouxe alguma tranqüilidade ao setor de energia no país. Tanto que a EPE ainda está de calculadora na mão, mas preliminarmente garante que o risco de falta de energia em 2010 ficou abaixo dos 5% com a venda desses 1,781 mil MW, que se somam aos 639 MW de energia de fontes alternativas que foram leiloados em junho deste ano e que entrarão em funcionamento também em 2010. 

"Tenho números diferentes. A minha visão é que ainda há uma diferença de 1,5 mil MW médios entre demanda e oferta a ser resolvida em 2011", completa Sales. Mesmo em meio a esse debate sobre o tipo de energia vendida, o fato é que Tolmasquim admite que usina a óleo combustível não é a vocação do Brasil. E reafirma que a vocação do país é a hídrica. 

MAURÍCIO CAPELA