Plantio de algodão pode dobrar com transgênico
A liberação para plantio de pelo menos três variedades de algodão transgênico poderá ser estratégica para que a área plantada do insumo na Bahia salte dos atuais 278 mil hectares (ha) para pelo menos 500 mil ha nos próximos quatro anos. A informação foi divulgada ontem por Eleusio Freire, sócio-diretor da Cotton Consultoria, em coletiva à imprensa, realizada via teleconferência. A coletiva ainda contou com a participação da diretoraexecutiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), Alda Lerayer.
A expansão da área cultivada poderá vir acompanhada de incremento na produção, que poderia chegar a 700 mil toneladas anuais em 2011, contra cerca de 405 mil toneladas anuais de pluma, obtidas atualmente. Na avaliação de Freire, a cotonicultura brasileira gradualmente perde competitividade ante concorrentes internacionais, que usam os transgênicos como passaporte para os mercados mais cobiçados do comércio internacional do setor, como Europa e EUA. Enquanto perdem competitividade, os produtores brasileiros sofrem com pragas de insetos, como os da ordem Lepidóptera (um tipo de lagarto), algo superado pelos concorrentes internacionais mediante o uso de variedades transgênicas.
De acordo a publicação Guia do Algodão, da CIB, o uso dos transgênicos poderia resultar em redução de custos para os produtores, além de menor dano ambiental. O material traz que a economia de combustível proveniente da diminuição de pulverização de agrodefensivos no País poderia ser de até 14,4 milhões litros de diesel ao ano, dependendo da variedade transgênica adotada na lavoura, o que representaria uma redução de emissão de 100 kg/ha de CO² na atmosfera anualmente. Porém, o caminho para o reforço na competitividade da cotonicultura brasileira e a redução de custos de produção tem como adversários movimentos sociais, contrários à expansão das variedades agrícolas geneticamente modificadas, aponta Alda Lerayer.
“São movimentos puramente ideológicos, inclusive infiltrados no governo, que impedem que o produtor brasileiro possa exercer seu direito de escolha, em trabalhar com os transgênicos”, observa Lerayer. A executiva ainda avalia que a mesma oposição em relação aos produtos geneticamente modificados não é observada em relação aos outros usos da tecnologia, amplamente aplicada numa gama de setores que engloba desde vestuários até medicamentos.
Até o momento, a única variedade de algodão geneticamente modificada liberada para uso comercial no País é a Bollgard I. A variedade é resistente a insetos, mas a expectativa do mercado gira em torno da liberação comercial do Bollgard II, da Monsanto do Brasil, que, além da proteção contra os insetos , possui resistência aos herbicidas aplicados na lavoura. Os produtores ainda reivindicam a liberação das variedades Liberty Link, da Bayer CropScience, tolerante ao herbicida glufosinato de amônio; Roundup Ready, da Monsanto do Brasil, tolerante ao herbicida glifosato; Widestrike, da Dow Agrosciences, resistente a insetos.
Uma das etapas para a liberação comercial das variedades geneticamente modificadas é a audiência pública a ser realizada pelo colegiado da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio) no Congresso Nacional, evento previsto para o próximo dia 17. A Bahia é o segundo maior produtor de algodão do País, com 405 mil toneladas anuais. As exportações da cotonicultura baiana chegaram a US$ 156,6 milhões, em 2006.
Produtos causam preocupação
A preocupação com a saúde humana é o que move as organizações que questionam o uso dos transgênicos, avalia a coordenadora da campanha de engenharia genética do Greenpeace Brasil, Gabriela Vuolo.
Ela observa que os estudos relacionados ao uso dos produtos geneticamente modificados não são conclusivos em relação ao dano ambiental e à saúde da população. “Há casos nos quais os produtores adotam variedades geneticamente modificadas, mais resistentes a agrotóxicos. Com isso, eles passam a usar mais defensivos agrícolas, o que pode aumentar a quantidade de resíduos de agrotóxicos no meio ambiente, ou nos alimentos”, aponta Gabriela Vuolo.
CONSEQÜÊNCIAS – Em texto disponível no endereço da instituição na web (www.greenpeace.org.br), é manifestada a preocupação com possíveis conseqüências do uso dos transgênicos para a saúde humana, como o aparecimento (ou aumento) de alergias provocadas por alimentos geneticamente modificados; o aumento da resistência a antibióticos; e o aparecimento de novos vírus, mediante a recombinação de vírus “engenheirados” com outros já existentes.
Gabriela Vuolo ainda afirma que a exigência da ONG é que seja implementado o Princípio da Precaução sobre a questão dos transgênicos, pois não há estudos conclusivos sobre os efeitos nocivos do uso das variedades geneticamente modificadas
LUIZ SOUZA