Produtores do São Francisco querem irradiador na região
Com custos de investimento total para ter seu próprio irradiador na ordem de R$ 6,5 milhões e vida útil de 20 anos, o Vale do São Francisco precisaria de grande parte de recursos vindo do governo federal com propostas de possíveis e futuras parcerias públicas e privadas para ter, no Nordeste, o segundo irradiador fora da região Sul e Sudeste.
Construído no vale, beneficiaria a fruticultura irrigada, além de proporcionar a diversos setores diferentes da agricultura a oportunidade de irradiação de seus produtos. No momento, isso só é feito no Estado de São Paulo.
“Estamos num local estratégico. Temos produtos que precisam ser enviados a São Paulo para serem irradiados”, alega o pesquisador Joston Assis, citando como exemplo o plantio da soja, em que é preciso usar um substrato estéril.
“Nesse substrato é colocado uma bactéria que faz simbiose com a soja para fornecer nitrogênio. O Brasil não tem capacidade de irradiar todo o substrato que os produtores de soja precisam. E, com um irradiador na região, nós faríamos essa irradiação para eles”, alega.
Além disso, destacou a garantia de emprego e renda e com a manutenção de uma agricultura competitiva. Outras frutas além da manga também poderiam ser irradiadas, a exemplo de goiaba, mamão, morango e uva. Joston lembra que os americanos não compram alimentos, nem mesmo para animais, se não forem irradiados, por considerarem o animal transmissor ou hospedeiro de organismos que poderiam contaminar os donos e a irradiação elimina essas possibilidades.
EM SÃO PAULO – Exibindo fotos que mostram uma sessão de irradiadação no Ipen, em São Paulo, o pesquisador identifica a antecâmara de irradiação de frutas que contém sistema de carregamento e descarregamento de esteira de transporte que levarão para dentro de um bunker (câmara protegida onde é feita a irradiação) as caixas de alumínio com as amostras.
De uma sala de comando é feito todo o acompanhamento do que vai se passar dentro do bunker. “As pesquisas dão conta de que a medida de irradiação (feita em quilos gray – KGy) adequada para as frutas é entre 0,20 ou 0,50 KGy”, ressalta Joston Assis. Segundo ele, as frutas ficam tempo suficiente dentro do bunker para receber a dose de irradiação correta e um sensor avisa que já está no ponto certo.
“Quem trabalha no ambiente da câmara de irradiação usa jaleco com placa de impressão fotográfica (como um material de raio X) e depois do período de trabalho essa placa é enviada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM), em São Paulo, para o setor de segurança analisar a dose de radiação que a pessoa recebeu”, informa.
Consumidores foram ouvidos sobre a qualidade das frutas
Uma pesquisa foi elaborada e um teste foi feito em uma universidade de São Paulo, onde frutas com e sem irradiação foram servidas, sem que as pessoas soubessem qual era cada uma. Depois, um questionário foi distribuído e respondido pelos participantes, que analisaram a manga, respondendo a quesitos que tratavam de odor, sabor e cor.
Poucas diferenças foram citadas pelas pessoas, que fizeram algumas observações quanto ao cheiro, mas, no geral, houve grande aceitação. Foi aplicada uma enquete ainda sobre a possibilidade de comprar da fruta irradiada, com resultado considerado positivo, de aceitação pela maioria dos que foram ouvidos.
Do total de pessoas entrevistadas, 48% disseram que provavelmente comprariam e 31% afirmaram que com certeza comprariam os alimentos irradiados. O resultado para os pesquisadores “dá um total de 79% de aprovação”, apesar de muita gente ainda desconhecer sobre o tratamento irradiado. Na mesma enquete, 42% das pessoas não apresentaram nenhum conhecimento sobre o processo de irradiação.
SEMINÁRIO – Em Petrolina (PE) foi realizado um seminário, na semana passada, reunindo produtores de manga do Vale do São Francisco, autoridades sanitárias da Bahia e Pernambuco, representante do Departamento de Agricultura dos EUA e da empresa MDS-Nordion, fabricante do irradiador que está sendo instalado no México.
O encontro serviu para atualizar as informações de produtores nacionais em relação ao estado tecnológico dos países desenvolvidos, discutir com as autoridades locais responsáveis pela regulamentação entre países de comercialização de frutas irradiadas, além de colocar em pauta o uso do irradiador no sentido de não perder a competitividade no mercado internacional.
CRISTINA LAURA