Leite: Secretário admite crise
A ausência de políticas públicas para a pecuária leiteira baiana é apontada pelos produtores locais como a principal causa da crise pela qual vem passando o setor. Apesar das condições favoráveis, como clima e solo adequados, a bacia leiteira do Estado carece de incentivos para se desenvolver e conquistar a confiança da indústria.
“Existe um desestímulo à produção. Muitos produtores acabaram com seus plantéis e migraram para outra atividade, como a pecuária de corte”, revelou o presidente da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb), João Martins Júnior.
Na opinião do pecuarista, o governo precisa orquestrar a organização da cadeia produtiva para que o produtor possa acreditar na atividade. “Não existe problema de entressafra, o que há é uma desorganização do segmento por falta de um maestro, que deveria ser o governo”, dispara.
INDÚSTRIA – Essa desestruturação do setor impede que as indústrias de laticínios invistam em usinas de processamento e adquiram a produção de leite local. “Nossa produção tem picos acentuados, o que causa uma irregularidade na produção e, por conta disso, a indústria alega que não há interesse em investir no Estado”, afirma Martins.
Mas essa situação poderia ser revertida se houvesse vontade política, conforme explica o presidente presidente da Faeb. “Se tivesse incentivos, este ciclo seria quebrado e o preço poderia se estabilizar, o que seria um motivador para os produtores, já que estes teriam condições de fazer reservas de alimentos para enfrentar os períodos críticos de seca, o que evitaria quedas bruscas na produção”, avalia Martins.
De acordo com o presidente da entidade, a Faeb tem limitação de recursos e de oficialidade para resolver a questão, no entanto, levou algumas propostas para o governo. “Nós não temos as competências para resolver todas estas questões, mas a Secretaria da Agricultura as tem”, disse. O secretário da Agricultura, Geraldo Simões, admite que o Estado não tem um programa de incentivo à pecuária de leite e reconhece que as queixas dos produtores são procedentes. “Esta crise incentiva a aceleração da criação de um programa”, disse. Simões ressalta que já está em negociação com agentes financeiros estatais para criar linhas de crédito para o setor. “O diagnóstico nós já temos, faltam as ações”, constata.
Embora reconheça que a situação é crítica, o secretário não sabe quando o programa será implantado. “Estamos discutindo com os técnicos e com a Faeb, para criar um programa”, disse. A declaração revela que o governo ainda não tem um plano para resolver a situação a curto prazo.
Enquanto os incentivos governamentais não chegam, alguns produtores buscam alternativas de sobrevivência para a atividade. Em Feira de Santana, a Cooperativa Central de Laticínios da Bahia (CCLB), depois de amargar um período crítico, começa a dar sinais de que está se reerguendo.
De acordo com o presidente da CCLB, Almir Miranda, os produtores têm se organizado em cooperativas e associações para comercializar sua produção. “Com isso, eles estão garantindo preço e o entusiasmo para retomar a atividade”, explica. Miranda afirma que a falta de incentivos governamentais para o setor obrigou os produtores a abaterem suas matrizes. “Para recuperar o rebanho, é preciso um trabalho a médio e longo prazos”, disse.
RONALDO JACOBINA