Carbono: fonte de vida e vilão no aquecimento global

21/08/2007

Carbono: fonte de vida e vilão no aquecimento global

O carbono é o elemento químico fundamental para a vida na Terra. Ele está presente em minerais e nos compostos que fazem parte de todos os seres vivos, desde os vírus e bactérias mais simples até os animais mais complexos, como o ser humano. A Natureza obedece a ciclos que mantêm as substâncias em equilíbrio entre as diferentes camadas da Terra. Contudo, a atividade humana, principalmente depois da Revolução Industrial, vem interferindo nesse processo natural. No caso do carbono, não é diferente. Mas o aumento de sua concentração na atmosfera foi causado em virtude do crescimento desordenado das atividades que provocam a emissão de gases poluentes, em paralelo à destruição de reservas naturais capazes de absorver estes impactos.

Dentro do ciclo biológico do carbono há fluxos entre três reservatórios naturais – terrestre, atmosfera e oceanos – através dos processos da fotossíntese e da respiração. Através da fotossíntese, as plantas absorvem a energia solar e CO2 da atmosfera, produzindo oxigênio e açúcares como a glicose, que servem de base para seu crescimento. Os seres vivos utilizam estes açúcares (hidratos de carbono) pelo processo de respiração, utilizando a energia neles contida e emitindo CO2.

Juntamente com a decomposição orgânica (forma de respiração das bactérias e fungos), a respiração devolve o carbono, biologicamente fixado nos estoques terrestres, para a atmosfera.

O consumo energético introduzido pela humanidade com o uso de veículos automotores e atividades industriais, além das queimadas nas florestas, inseriuse violentamente neste sistema, provocando desequilíbrio através do consumo de combustíveis fósseis (derivados de petróleo, carvão e gás natural). "Chamamos o álcool de fonte renovável, porque, além de ser obtido num ciclo veloz, o CO2 produzido na combustão volta a ser fixado pelas próprias plantações de cana. O mesmo ocorre com o biodiesel e as plantas oleoginosas. No caso dos combustíveis fósseis, a natureza leva milhares de anos para produzir a matéria-prima a partir de organismos mortos", explica Emerson Andrade Sales, pesquisador em tecnologias limpas do Instituto de Química da UFBA e coordenador do projeto UFBA Ecológica.

O CO2, assim como outros gases à base do carbono, como o metano (CH4) ou os compostos de cloro, o flúor e o carbono (conhecidos como CFC), retém parte do calor irradiado pela terra, impedindo que seja dissipado para fora do planeta. Através do processo de fotossíntese, as plantas utilizam o carbono para seu crescimento, fixando-o em seus tecidos (C), devolvendo oxigênio (O2) para a atmosfera.

Por isso as florestas – uma vez que concentram árvores, vegetais complexos com maior capacidade de seqüestro do carbono – são fundamentais no controle da concentração do CO2 na atmosfera e, conseqüentemente, do "efeito estufa".

Os maiores emissores de carbono são os países mais desenvolvidos, nos quais o processo industrial já se consolidou há mais tempo e o uso de combustível de origem fóssil é mais intenso. Porém, cada pessoa no planeta é responsável pelas emissões em virtude da energia consumida em casa, nos meios de transporte utilizados ou na destinação que é dada ao lixo doméstico. Assim como as empresas, os indivíduos podem cooperar com a redução das emissões, sobretudo transformando-se em consumidores conscientes, consumindo apenas o estritamente necessário para seu conforto, e praticando em sua casa o uso racional dos recursos naturais, como água e energia, e até mesmo fazendo a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis – optando por um carro a álcool, por exemplo. Outra forma seria investir no plantio de árvores com objetivo de capturar e armazenar o carbono em excesso da atmosfera.

No caso das indústrias, há ainda uma outra alternativa relativamente recente apontada pelos técnicos da organização Iniciativa Verde – a captura do CO2 por ações físicas e químicas nos pontos de produção ou transformação de energia e sua subseqüente armazenagem em poços de petróleo e gás exauridos ou mesmo em produção, e/ou sua armazenagem nas profundezas dos oceanos.

Agindo contra a poluição

O engajamento empresarial na tarefa de regenerar os recursos ambientais e, mais do que isso, neutralizar os impactos provocados por seus negócios é fundamental na corrida contra a destruição do meio ambiente. Existem hoje possibilidades economicamente viáveis – em muitos casos também rentáveis – para recuperar ou minimizar a taxa de emissões de carbono e outros poluentes de uma atividade produtiva qualquer. Todas elas derivam da mudança de atitude por parte das empresas, que inclui desde a revisão de seus processos internos em busca de alternativas "verdes" até a participação em programas de neutralização do carbono, mantidos por organizações que atuam no reflorestamento e recuperação de unidades de preservação.

No primeiro caso, trata-se de uma revisão do uso dos recursos materiais, adotando produtos biodegradáveis e rotinas mais econômicas, visando diminuir a produção de resíduos, principalmente de poluentes. Para quem acredita que o benefício dessas ações é apenas hipotético, Emerson Andrade Sales, pesquisador em tecnologias limpas do Instituto de Química da UFBA, apresenta o caso de uma empresa do Pólo, que foi tema dos estudos de pós-graduação de um de seus alunos. Obedecendo à legislação vigente, a cada ano, a fábrica pagava uma vultosa multa em virtude da poluição de uma fonte de água. Ao modificar um dos catalisadores utilizados na produção, a empresa deixou de produzir o resíduo tóxico. Não apenas economizou no pagamento da multa como também na energia elétrica do maquinário usado para a dispersão destas substâncias. Em números, isto representa a economia de cerca de R$ 1,3 milhão anuais, ou seja, lucro para a empresa.

Organizações de outra natureza podem também fazer algo nesse sentido. A Unifacs, por exemplo, implantou o programa Engajamento Cidadão, coordenado pela professora Débora Nunes, que promove o conceito de "consumo consciente", aglutinando alunos, professores e funcionários em torno da responsabilidade na utilização dos recursos. Com práticas simples, os três primeiros meses de implantação representaram uma economia em torno de R$ 300 mil, que serão investidos na ampliação do programa.

Uma outra forma de investir na preservação ambiental são os projetos de neutralização das taxas de emissão de carbono através do plantio de árvores. Para isso, o interessado deve procurar organizações não-governamentais (ONGs) ou empresas especializadas que trabalham com o cálculo personalizado das emissões de carbono, para determinar a quantidade de árvores necessárias para seqüestrá-lo. A idéia é que os responsáveis pela poluição atmosférica possam financiar a compensação natural deste processo, ou seja, no restabelecimento de florestas degradadas pela ação humana.

Neste caso, são distribuídos selos certificando a neutralização das emissões, contribuindo para o crescimento da imagem da empresa no mercado. Enquanto isso, os responsáveis pelo reflorestamento têm condições de efetivar o plantio e o acompanhamento das áreas em recuperação. Todo mundo sai ganhando.